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História de Adelaide

by Maria Peregrina de Sousa

Region: Norte, Portugal

Edited by Mónica Ganhão

Transcribed by Mónica Ganhão

Conto

Adelaide correu a mão por cima do loiro cabelo de sua filhinha, e disse:

 

“Era eu tão grande como Júlia, e já tinha penas!1sofrimentos Mas que penas são as da infância? Eu sentia, é verdade, a falta das carícias maternas, e pesava-me o mau humor de meu pai, cujo génio naturalmente áspero se havia azedado com a morte de minha mãe: mas as minhas tristezas de então eram como o nevoeiro de uma manhã da primavera, que a ligeira aragem do norte logo dissipa.

Meus irmãos, que eram mais crescidos que eu, deixaram a terra natal para irem estudar à universidade de Coimbra; e eu fiquei para sofrer todo o peso do mau humor de meu pai. Quanto então invejei a sorte de meus irmãos, e quanto não ambicionei o ser também homem para poder ausentar-me da terra em que nascera! Louca que eu era!… Que há no mundo mais doce que o perfume das flores do solo em que nascemos; o chilrar dos pássaros, que voltejavam em torno de nosso berço; a sombra das árvores, em que se fixavam nossos olhos quando apenas se abriam; e o murmurar da fonte da nossa aldeia? Agora que vivo no exílio, é que sei quanto vale o que hei perdido.2Formulação antiga do pretérito perfeito que significa “perdi”. Se uma andorinha passa junto a mim, e que anda ajuntando a sua família para se ausentar, o coração se me aperta, e sinto um pesar vago e profundo de não ter asas, como noutro tempo o tive de não ser homem. Tanta foi a vontade que tive de me apartar do tecto de meus pais, quantos são hoje os desejos que tenho de o avistar, ainda que só fosse de longe.

Ai de mim! Que mais razoáveis são hoje os meus desejos presentes que os desejos passados? Até velhos somos crianças. Nossa vontade, nossos prazeres, nossos desgostos, tudo enfim que sentimos e apetecemos3queremos é tão pueril na infância como na idade madura: porventura mais ainda nesta última, pois quanto mais vamos na estrada da vida, mais desejos vãos nos assaltam, menos apreciamos os bens que gozamos para desejar os a que não podemos chegar. Eu agora choro a minha pátria, quando uma terra hospitaleira me acolhe; choro a minha família e o tecto paterno, quando uma família beneficente me recebe em seu seio, e o seu tecto me agasalha. Não é isto ser ingrato para com Deus e os homens? Não faria eu melhor em estar como a minha pequena Júlia contente e satisfeita? Contente não!… Que a alegria e ventura fogem de um peito em que a dor se domiciliou,4fixou habitação mas podia viver mais resignada, e seria menos incómoda aos outros e a mim. O pesar5a mágoa, o sofrimento sobretudo de não viver na minha terra natal, devia não entrar no número dos meus pesares. Por acaso o pequeno espaço de terreno que as vagas cercam, e onde eu primeiro vi a luz do dia, é a minha pátria? Por certo não, que se o fora teria eu lá estado satisfeita, haveria lá gozado dias de ventura6felicidade e de paz, e nunca a minha vida foi tão tormentosa como lá. A minha pátria, a pátria de todos os humanos seres, é numa esfera mais superior. Todos o sentem, ainda que nem todos o digam ou pensem. Que mais faz arrastar o fardo de uma miserável aqui, ou noutra parte? Tanto vale um como outro sítio; é sempre em desterro que vivemos.

Contudo, a pesar meu7Neste contexto a expressão significa “infelizmente”. volvo8volto a lamentar a terra de meus pais. Lá sofri a mais aguda dor que um coração pode sentir; mas também lá é que vi Henrique… Lá vivi uma infância triste e desgostosa (eu nasci para padecer 9sofrer); mas lá deixei um pai, que mergulhei em mais amargo pesadume10desgosto do que ele já padecia, e que se queixa, por ventura, da sorte que lhe deu uma só filha, e [a] única filha que o abandonou. É, pois, para gemer que eu queria voltar ainda ao sítio do meu nascimento. Queria regar com minhas lágrimas o solo que bebeu o sangue do meu Henrique… queria variar minhas queixas aos ecos que repetem as queixas de meu pai! Mas debalde anelo11desejo intensamente por tornar a pisar a terra natalícia.12a terra que foi o lugar do seu nascimento Meu pai não me quer ver; e então que iria lá fazer? Ver o túmulo de Henrique?… Encarar em seus inimigos, e não ver um só amigo? Não ter um coração que sentisse meus pesares, nem uma mão que enxugasse meu pranto? Antes viver expatriada, mas entre pessoas que simpatizam com minhas penas. Ao menos aqui vivo na pátria de Henrique, no seio da sua família, e posso chorá-lo sem constrangimento. Todos os corações aqui o amam, lá só o meu o conhecia e apreciava.

Minha larga digressão te causará tédio, mas é preciso que eu deixe vaguear minha imaginação para ganhar forças de recordar os pesares da minha triste existência. Enquanto meus irmãos se formaram, eu padeci muito. O génio atrabiliário13colérico de meu pai se me tornava14Nesta época, a ordem das palavras na frase poderia ser usada de forma diferente da dos dias de hoje. Daí a formulação acima. insuportável. Chamava-me a pessoa mais desditosa do mundo. Insensata! julgava-me desgraçada, porque meu pai era demasiado colérico; que me chamarei eu agora? Havia eu já feito os dezasseis anos quando os liberais se apossaram da nossa ilha. Meu pai e irmãos eram realistas exaltados; eu também o era por educação, não por sentimentos, que a tirania que se usava comigo era muito própria a fazer-me amar a liberdade. Longe, porém, desta me ser apresentada com os adornos e galas com que a costuma ataviar15adornar os seus partidistas, me era pintada com o traje fúnebre e desalinho16desmazelo indecente de que os seus contrários a vestem. Eu a tinha pois em horror, e ainda mais aos seus defensores. Que eles eram homens sem moral nem religião, sem delicadeza nem honra, era o que à força de o ouvir tinha impresso na memória.

Nós vivíamos numa quinta, que repentinamente ficou rodeada de tropas liberais. Meu pai pensava em se retirar para outra quinta mais distante, quando lhe mandaram um oficial aboletado.17alojado A nossa família era tão suspeita, que seria votar-se a uma desgraça certa abandonar em tais circunstâncias a casa. Foi, pois, decidido que ficássemos, e me foi por meu pai ordenado de não sair do meu quarto. Tal ordem não me pareceu dura ao princípio. Odiava eu mui18muito francamente os liberais para que desejasse encontrar-me com eles. Dois dias estive mesmo sem chegar a uma janela do meu aposento que deitava sobre o jardim, com receio daí ver algum dos novos chegados. Todavia a ociosidade, o enjoo de me ver só, e a curiosidade me levaram por fim a abrir a dita janela, e a observar um oficial que passeava no jardim: ele era o nosso hóspede, era Henrique. Meu coração bateu apressadamente, mas ainda hoje penso que aquelas primeiras pulsações foram de raiva. Pouco a pouco, porém, me acostumei a ver a nobre figura de Henrique. Nos dias seguintes voltei a vê-lo, e cada vez melhor me pareceu:

—Que pena, que um tão belo homem seja um pedreiro livre,— dizia eu suspirando.  —Um vândalo, um revolucionário!…

Olhava Henrique às vezes para mim, e me cortejava respeitosamente. Eu, depois de lhe corresponder, corando, metia-me imediatamente para dentro. Ele vendo isto por costume, julgou que eu era vigiada, e que me seriam imputadas as suas atenções, ou que por minha livre vontade o queria dissuadir de olhar para mim, e não tornou a erguer os olhos para a minha janela rasgada; isto me deu uma pena imensa. Henrique já me era mais querido do que eu imaginava. Supus provir o meu desgosto do meu insulamento e prisão, e me queixei a meu irmão mais velho, que uma ocasião me foi ver. Ele tomou-me o pulso, achou-me febre, e me pegou pelo braço, dizendo:

—Precisas de algum exercício, anda comigo ao jardim.

Eu estremeci, replicando:

—Ao jardim!…

—Ninguém encontrarás, — me respondeu. —Os rebeldes têm revista19operação de revista das tropas que tinha como objectivo assegurar a disciplina e organização, e por estas duas horas estamos livres deles: podes passear sem susto.

Desci com meu irmão, e senti uma vida nova. Quanto não é suave o bafo do zéfiro na primavera, o aroma das flores, e o gorjear das aves, para uma alma namorada! Eu cria todavia que o prazer que experimentava era filho da longa reclusão que havia sofrido, e meu irmão supôs o mesmo. Chamaram-no, e como ele julgou conveniente à minha saúde o exercício, deixou-me no jardim, recomendando-me que não me demorasse muito fora de casa. Na minha família nunca se curou do meu bem senão fisicamente. Estivesse triste ou alegre, bem ou mal, era o mesmo, contanto que eu tivesse saúde. Eu era tratada como um ente irracional que não possui um espírito, um coração sensível, e uma alma pensadora. E então eu que tinha um espírito activo, um coração terno, e uma alma ardente!

Quando me vi no jardim corri todos os sítios em que vira Henrique da minha janela, contemplei as estátuas que ele havia olhado, colhi as flores que ele tinha cheirado. Em um perfeito delírio corria de um sítio a outro, e por fim entrei num pequeno laranjal que ficava contíguo ao jardim. Nunca tinha tido (nem tornei a ter) um momento na vida mais feliz do que aquele. Sem saber que amava, sentia o prazer que inspira uma paixão no seu começo, e não sentia o receio que depois a acompanha. Era feliz sem compreender a razão porque o era.

Em cima de um banco que estava à sombra de uma laranjeira vi um livro, que ali talvez havia esquecido a Henrique.20“esquecer a”: forma antiga de dizer “de que Henrique se havia esquecido” Este foi meu primeiro pensamento, e, contudo, o livro podia ser de algum de meus irmãos. Para vencer minha timidez, disse a mim mesma que o livro era de alguém que eu não sabia, mas não do nosso hóspede. Peguei depois nele, e me sentei; o meu corpo tremia, o que atribui ao cansaço. O livro era a Marília de Dirceu.21Título de um texto lírico escrito por Tomás António Gonzaga e publicado em 1792. Nunca eu tinha lido aqueles doces versos (nunca havia lido nada); eles me arrebataram o pensamento. Eu chorava, beijava o livro… o tempo voava sem que eu o percebesse.

Ia a erguer os olhos ao céu na força do meu entusiasmo, quando dei com a vista em Henrique, que a pouca distância me contemplava comovido. Senti um ardor nas faces, que depressa foi substituído por um gelo de neve, e que outra vez deu lugar ao fogo ardente. Larguei o livro das mãos, e me desculpei balbuciando de ter pegado nele. Henrique não tinha ainda dito que o livro lhe pertencia, mas eu naquela ocasião já me não iludia, e estava certa que era dele. Henrique o apanhou, e mo entregou, dizendo:

—Espero que não terá, por ser meu, versos menos belos, pois que são feitos pelo bom Dirceu. Livre-se só vossa excelência de ler a terceira parte, que bem se conhece não pertence ao amante da formosa Marília.

Eu peguei no livro sem saber o que fazia. O amável militar me ofereceu o braço para me conduzir a casa, vendo que eu mostrava a intenção de me retirar. Estava eu perplexa, não sabendo como recusar, e receando aceitar, ao mesmo tempo que o desejava, quando avistei meu pai do outro lado do laranjal. Caí sobre o banco, exclamando:

—Mísera de mim! — escondendo o rosto com o livro e o lenço.”

 

Neste sítio da narração de Adelaide, sua filha, que brincava com flores sentada a seus pés, lançou um agudo grito. A mãe precipitou-se a ver o que ela tinha. Uma vespa lhe havia ferrado um dedo. Adelaide esqueceu num momento todas as suas passadas angústias para pensar só no incómodo de sua filha, e procurar mitigar a dor que ela sentia.22Esta passagem é o final da primeira parte do conto, que foi publicado em vários números do periódico.

No dia seguinte, entanto23enquanto que Júlia embalava a sua boneca, Adelaide continuou:

 

“Meu pai, como um furacão do inverno, se lançou sobre mim, arrancou-me o livro com furor, e o arremessou longe; depois pegou-me no braço com ímpeto, e me levou consigo, chamando no entanto a Henrique (que interdito24significado antigo: estupefacto, imóvel. nos olhava) sedutor, ímpio, rebelde, sectário da desordem e do crime. Pensa tu o que sentiria meu coração! Passei todo aquele dia entregue a mil angústias. Perto da noite a minha criada me disse que o oficial se havia retirado repentinamente de nossa casa, e que o camarada que ficara a arranjar as malas, me remetia um livro que havia achado no laranjal, e que tinha o meu nome. A criada em me dando este recado detinha o livro na mão, bem certa talvez que ele não era meu. Eu lho arranquei das mãos, e vi que era a Marília de Dirceu, com o seguinte escrito a lápis na primeira folha: “À beleza e doçura oprimida um desgraçado envia.”

—Onde está o camarada?— perguntei eu em acto de entregar o livro.

—Já se ausentou também, — me respondeu a criada. —Mas o livro não é dele; se não pertence a vossa senhoria, será de algum dos senhores.

—Não, — exclamei retendo o livro assustada. —Ele é meu; porém queria dar alguma coisa a esse soldado por o ter achado.

—Não é mister,25Não é necessário. minha senhora. Estes rebeldes não lhes falta nada.

Desde aquele dia todos os meus instantes foram empregados a chorar, a ler a Marília de Dirceu, e a pensar em Henrique. Uma manhã, que me tinha levantado cedo por não poder dormir, e que estava à janela que dava para o jardim, vi cair uma laranja a meus pés. Ergui os olhos assustada, e avistei Henrique debruçado no muro do jardim. Corei e fiz-me pálida; o prazer de o ver era contrabalançado pelo pejo26pudor e pelo receio. Ele me fez um aceno de despedida com tristeza, e desapareceu. Aquela rápida aparição me parecia um engano dos sentidos, mas a laranja jazia a meus pés para atestar a verdade do sucesso.27sucedido Levantei-a, e vi que só era a casca com uma carta dentro. Li-a primeiro timidamente, e depois a tornei a ler banhada em pranto. Henrique me dizia nela que ia deixar aqueles sítios, e que não podia resolver-se a partir sem me dizer um adeus, que talvez seria eterno, e sem me pedir perdão da opressão que ele me havia acarretado com sua imprudência.

A minha saúde muito se alterou depois, e meu irmão mais velho, que supôs ser causa disto o tratamento duro de meu pai, alcançou licença de me levar a passar dois meses com uma velha parenta, que morava longe da nossa habitação. Como nos arredores da morada dela não havia tropas, meu irmão deixou-me lá, e voltou para a companhia do pai, porque só ele podia movê-lo a obrar com menos imprudência quando tinha a tratar com liberais.

Parece que naquele tempo o destino tomara a cargo favorecer o meu amor. Pouco depois de meu irmão partir, chegou Henrique com um destacamento à povoação em que eu estava. Primeiro, por pejo e receio, me esquivei aos obséquios28gentilezas que já então Henrique francamente me fazia como amante; mas a minha paixão podia já mais que a minha razão, e sem esquecer as dificuldades quase invencíveis que dele me separavam, lhe deixei por fim saber, que amá-lo era já uma necessidade para mim. Henrique, arrebatado de prazer, queria correr a meu pai, pedir-lhe a minha mão. Dissuadi-o de tal, porque sabia a maneira com que esta proposta seria aceite,29recebida e o resolvi a esperar que meu irmão viesse buscar-me para o dispor a implorar por nós a meu pai.

Foi em vão que esperei que meu irmão cederia aos rogos de Henrique. A todas as instâncias que este lhe fez, meu irmão só respondeu que eu era uma criança, que não tinha vontade própria, e que o pai já me tinha destinado outro marido. Fez-me depois levar à sege30carruagem quase sem sentidos, e me deixou entregue a mim mesma. Ele via-me acabrunhada de dor para ousar repreender-me, e tinha muita altivez e frieza de carácter para procurar consolar-me.

Depois de meia hora de uma muda desesperação, comecei a chorar e soluçar. Meu irmão parecia cego, surdo e mudo: só quando estávamos perto da casa é que ele me aconselhou que enxugasse os olhos, e que não deixasse conhecer ao pai que, no tempo que estivera fora, havia adquirido uma tão grande moléstia de cérebro. Apesar da pouca doçura do discurso de meu irmão, eu conheci que ele me dava um conselho de amigo em me advertindo que um mais severo juiz me ia observar, e forcejei por ocultar em meu seio toda a força da minha dor.

Pouco tempo tive, porém, de constrangimento. Henrique desde que eu parti foi em meu seguimento. Não vendo outro meio de me obter, foi lançar-se aos pés de meu pai a pedir-lhe a minha mão, mas foi repelido com furor. Teve depois Henrique o pesar de ver que tinha feito aumentar a minha escravidão sem proveito, pois fui depois tratada com o maior rigor, e a ele foi-lhe impossível ver-me, ou fazer-me chegar notícias suas. As cartas que me escrevia eram todas interceptadas por meu pai, que as rasgava, e lhas recambiava31devolvia em mil pedaços.

Eu, no entanto,32Neste contexto tem o sentido de “entretanto”. sofria muito. Além de meus ocultos pesares, tinha a lutar com a vontade firme de meu pai, que queria casar-me com um seu amigo. Este amigo nunca o havia sido meu, pois me não agradava, mas tinha a grande qualidade para meu pai de ser realista exaltado, e extremamente rico. Henrique soube que eu era atormentada para casar com outro, e tomando somente conselho do seu amor, e compaixão por meus sofrimentos, tirou-me33fugiu com ela por justiça sem poder consultar-me antes. Se ele tivesse podido comunicar-me as suas intenções, eu o desviaria de tal, porque não me resolveria nunca a dar aquele desgosto a meu pai; mas depois do passo dado, por honra, delicadeza, e até por medo de meu pai, devia seguir a sorte de Henrique, e é o que fiz. Casei com o homem que adorava; e minha alma, longe de ficar satisfeita, ficou entregue a mil desgostos. Como é triste um casamento que sabemos despedaça o coração de um pai, por duro que ele seja!

Ao meu casamento não assistiu um só parente. Os de Henrique estavam longe, os meus tomaram o partido de meu pai. Todo o meu cuidado era disfarçar aos olhos de Henrique as minhas penas. Que pensaria ele se me visse triste? Ele, que terno e atencioso, procurava adivinhar-me os pensamentos para me satisfazer?… Eu e Henrique buscámos todos os meios de adoçar meu pai, mas quantos passos dávamos para este fim só serviam a irritá-lo mais. Ele, por causa de suas contínuas imprudências, foi preso, e teve a injusta e bárbara lembrança de atribuir a meu esposo a sua prisão. Henrique não só havia sido estranho34alheio a este acontecimento, mas antes tanto trabalhou depois que lhe fez restituir a liberdade.

Neste tempo vieram os liberais para Portugal, e Henrique me deixou só. Que tempo amargurado passei na sua ausência! Júlia, que nasceu nesse tempo, foi minha única consolação. Findou felizmente a renhida contenda dos liberais com realistas, e meu marido foi logo para me conduzir à sua pátria. Achou-me, porém, tão abatida, que receou que o transporte me fosse prejudicial, e demorou-se comigo alguns meses. Demora fatal! Quantas lágrimas me tem causado, e há de causar até à morte?…

Melhorei, e como não tinha já esperanças de me reconciliar com a minha família, apressei a nossa partida quanto pude. Eu temia (ai de mim!), temia com justo motivo que algum inimigo de meu marido lhe tirasse a vida. O partido liberal se havia dividido em dois (em quantos se dividirá ainda?…), e se olhava um ao outro com a mesma raiva com que o tigre olha o leão. Henrique tinha ficado no partido menos exaltado, e alguns do partido contrário ameaçavam seus dias. Eu não tinha um momento de sossego, um instante de alegria. Fazia seguir meu marido de dia e de noite, e às vezes eu mesma o seguia.

Estava a partir para Portugal uma embarcação, e nós tínhamos a bordo quase todos os nossos trastes.35pertences, mobília Começava eu a ganhar esperança de me ver livre de todos os terrores que dia e noite me atormentavam. Já tínhamos a passar uma só noite em terra… Ai! Que noite, meu Deus!… Henrique me fez deitar cedo para que me levantasse de madrugada. Bem necessitava eu de repouso, que os sustos contínuos me tinham tornado doente. Quando meu marido me viu deitada, deu-me parte que ia ao seu general, que o mandara chamar. Quis-me opor a que saísse, mas como persistiu no seu intento, pedi-lhe encarecidamente que levasse o criado. Desgraçada… naquela terrível noite não me quis fazer a vontade em nada. Chamava rindo aos meus justos terrores, terrores pânicos.

Não pude descansar um minuto depois que ele partiu. Escutava com atenção todo o ruído que ouvia, deitava-me, e sentava-me no leito, umas vezes suava, outras arrefecia. Júlia dormia placidamente no seu berço, e a criada que estava sentada a seu lado dormia também. Eu tinha vontade de as chamar com meus gritos, de me pôr a pé, de correr a casa do general, mas ficava em meu leito, que me parecia um leito de espinhos. Porque não mandei eu alguém em procura de Henrique?… Porque não escutei os conselhos do meu coração?… Uma má vergonha, um receio de fazer rir meu esposo à minha custa me deteve. Que importava (oh céus!) que ele depois me escarnecesse?…

Ouvi os passos de Henrique na rua, e gritei com força que fossem abrir a porta. No mesmo instante Henrique bateu, e o criado abriu e gritou:

—Mataram o senhor Henrique!

Saltei do leito, e voei ao portal. O meu querido Henrique tinha um punhal cravado nas costas. Que desesperação! Mandei todos os criados procurar socorro, e eu fiquei só no portal com Henrique, que deitado de bruços gemia. Quis erguê-lo; ele me disse apertando-me mão:

—Adelaide… minha cara Adelaide…

Fora de mim lancei as mãos ao punhal para lho tirar. Ele me disse:

—Deixa-me; matas-me mais depressa.

Então perdi de todo a razão. Saí, e o deixei lá ficar só. O meu sentido era ir procurar socorros, mas perdi o tino36sensatez, prudência e o juízo. Inda me lembra de sair, não me lembra de mais nada. Quando voltei à razão estava nas vizinhanças de Portugal… Os amigos de Henrique tinham-no achado morto quando o quiseram socorrer; e fazendo-me depois procurar, acharam-me desmaiada entre um montão de pedras, descalça, despida, toda cheia de pisaduras e de sangue. Depois quando o julgaram conveniente me fizeram eles embarcar com a minha Júlia… a minha única consolação e alívio!…”

 

Adelaide soluçando lançou os braços a sua filha, e a apertou ao coração. A porta da sala se abriu, e um homem adiantado em anos entrou e observou com ternura a mãe e a filha; depois precipitando-se para elas, exclamou:

—Minha filha!… minha querida neta!…— E as abraçou com transporte37com efusão, entusiasmo.

Diplomatic Transcription

HISTORIA DE ADELAIDE.38The title uses a different font from the rest of the text.

Adelaide39The first letter of this word is in a font different from both the text and the title. correo a mão por cima do loiro cabello de

sua filhinha, e disse:—“Era eu tão grande como Ju-

lia, e já tinha penas! Mas que penas são as da infancia?

Eu sentia, he verdade, a falta das caricias maternas, e

pezava-me o máo humor de meu pai, cujo genio natu-

ralmente aspero se havia azedado com a morte de minha

mãi: mas as minhas tristezas de então erão como o ne-

voeiro de huma manhãa da primavera, que a ligeira ara-

gem do norte logo dissipa. Meus irmãos, que erão mais

crescidos que eu, deixárão a terra natal para irem estu-

dar á universidade de Coimbra; e eu fiquei para soffrer

todo o peso do máo humor de meu pai. Quanto então

invejei a sorte de meus irmãos, e quanto não ambicionei

o ser tambem homem para poder ausentar-me da terra

em que nascêra! Louca que eu era!… Que ha no mun-

do mais doce que o perfume das flores do solo em que

nascemos; o chilrar dos passaros que voltejavão em torno

de nosso berço; a sombra das arvores, em que se fixavão

nossos olhos quando apenas se abrião; e o murmurar da

fonte da nossa aldêa? Agora que vivo no exilio, he que

sei quanto vale o que hei perdido. Se huma andorinha

passa junto a mim, e que anda ajuntando a sua familia

para se ausentar, o coração se me aperta, e sinto hum

pesar vago e profundo de não ter azas, como n’outro tempo

o tive de não ser homem. Tanta foi a vontade que tive

de me apartar do tecto de meus pais, quantos são hoje

os desejos que tenho de o avistar, ainda que só fosse de

longe. Ai de mim! que mais razoaveis são hoje os meus

desejos presentes que os desejos passados? Até velhos sômos

crianças. Nossa vontade, nossos prazeres, nossos desgos-

tos, tudo em fim que sentimos e appetecemos he tão pue-

ril na infancia como na idade madura: por ventura mais

ainda nesta ultima, pois quanto mais vamos na estrada

da vida, mais desejos vãos nos assaltão, menos apreciamos

os bens que gozamos para desejar os a que não podemos

chegar. Eu agora choro a minha patria, quando huma terra

hospitaleira me acolhe; choro a minha familia e o te-

cto paterno, quando huma familia beneficiente me rece-

be em seu seio, e o seu tecto me agazalha. Não he isto

ser ingrato para com Deos e os homens? Não faria eu

melhor em estar como a minha pequena Julia contente e

satisfeita? Contente não!… que a alegria e ventura fo-

gem de hum peito em que a dôr se domiciliou, mas po-

dia viver mais resignada, e seria menos incommoda aos

outros e a mim. O pezar sobre tudo de não viver na mi-

nha terra natal, devia não entrar no número dos meus

pezares. Por acaso o pequeno espaço de terreno que as

vagas cercão, e onde eu primeiro vi a luz do dia, he a

minha patria? Por certo não, que se o fôra teria eu lá

estado satisfeita, haveria lá gozado dias de ventura e de

paz, e nunca a minha vida foi tão tormentosa como lá.

A minha patria, a patria de todos os humanos sêres, he

n’huma esfera mais superior. Todos o sentem, inda que

nem todos o digão ou pensem. Que mais faz arrastar o

fardo de huma miseravel existência aqui, ou n’outra

parte? Tanto vale hum como outro sítio; he sempre em

desterro que vivemos. Com tudo a pezar meu volvo a la-

mentar a terra de meus pais. Lá soffri a mais aguda dôr

que hum coração póde sentir; mas também lá he que vi

Henrique…. Lá vivi huma infancia triste e desgostosa

(eu nasci para padecer); mas lá deixei hum pai, que

mergulhei em mais amargo pezadume do que elle já pa-

decia, e que se queixa por ventura da sorte que lhe dêo

huma só filha, e unica filha que o abandonou. He pois

 

[370b]

 

para gemer que eu queria voltar ainda ao sitio do meu

nascimento. Queria regar com minhas lagrimas o solo

que bebeo o sangue do meu Henrique…. queria variar

minhas queixas aos écos que repetem as queixas de meu

pai! Mas debalde anhelo por tornar a pizar a terra na-

talicia. Meu pai não me quer vêr; e então que iria lá

fazer? Vêr o túmulo de Henrique?… encarar em seus

inimigos, e não vêr hum só amigo? Não ter hum cora-

ção que sentisse meus pezares, nem huma mão que en-

xugasse meu pranto? Antes viver expatriada, mas entre

pessoas que simpatisão com minhas penas. Ao menos aqui

vivo na patria de Henrique, no seio da sua familia, e

posso chora-lo sem constrangimento. Todos os corações

aqui o amão, lá só o meu o conhecia e apreciava. Minha

larga digressão te causará tédio, mas he preciso que eu

deixe vaguiar minha imaginação para ganhar forças de

recordar os pezares da minha triste existencia. Em quan-

to meus irmãos se formárão, eu padeci muito. O genio

atrabiliario de meu pai se me tornava insoportável. Cha-

mava-me a pessoa mais desditosa do mundo. Insensata!

julgava-me desgraçada, porque meu pai era demasiado

colerico; que me chamarei eu agora? Havia eu já feito

os dezeseis annos quando os liberaes se apossárão da nossa

ilha. Meu pai e irmãos erão realistas exaltados; eu tam-

bem o era por educação, não por sentimentos, que a ti-

rannia que se usava comigo era muito propria a fazer-me

amar a liberdade. Longe porém desta me ser apresenta-

da com os adornos e gallas com que a costumão ataviar

os seus partidistas, me era pintada com o traje fúnebre e

desalinho indecente de que os seus contrarios a vestem. Eu

a tinha pois em horror, e ainda mais aos seus defenso-

res. Que elles erão homens sem moral nem religião, sem

delicadeza nem honra, era o que á força de o ouvir tinha

impresso na memoria. Nós viviamos n’huma quinta, que

repentinamente ficou rodeada de tropas liberaes. Meu pai

pensava em se retirar para outra quinta mais distante,

quando lhe mandárão hum official aboletado. A nossa fa-

milia era tão suspeita, que seria votar-se a huma des-

graça certa abandonar em taes circunstancias a casa. Foi

pois decidido que ficassemos, e me foi por meu pai or-

denado de não sahir do meu quarto. Tal ordem não me

pareceo dura ao principio. Odiava eu mui francamente os

liberaes para que desejasse encontrar me com elles. Dois

dias estive mesmo sem chegar a huma janella do meu apo-

sento que deitava sobre o jardim, com receio d’ahi vêr

algum dos novos chegados. Todavia a ociosidade, o enjôo

de me vêr só, e a curiosidade me levárão por fim a abrir

a dita janella, e a observar hum official que passeava no

jardim: elle era o nosso hospede, era Henrique. Meu

coração bateo apressadamente, mas ainda hoje penso que

aquellas primeiras pulsações forão de raiva. Pouco a pou-

co porém me acostumei a vêr a nobre figura de Henri-

que. Nos dias seguintes voltei a vê-lo, e cada vez melhor

me pareceo. — “Que pena, que hum tão bello homem

seja hum pedreiro livre, dizia eu suspirando; hum van-

dalo, hum revolucionario!…” — Olhava Henrique ás ve-

zes para mim, e me cortejava respeitosamente. Eu de-

pois de lhe corresponder, córando, mettia-me immedia-

mente40This word should be “immediatamente”, but the syllable “ta” is omitted in the original. para dentro. Elle vendo isto por costume, julgou

que eu era vigiada, e que me serião imputadas as suas at-

tenções, ou que por minha livre vontade o queria dissua-

dir de olhar para mim, e não tornou a erguer os olhos

para a minha janella rasgada; isto me dêo huma pena

immensa. Henrique já me era mais querido do que eu

imaginava. Suppuz provir o meu desgosto do meu insola-

mento e prisão, e me queixei a meu irmão mais velho,

que huma occasião me foi vêr. Elle tomou-me o pulso,

achou-me febre, e me pegou pelo braço, dizendo: —

 

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“Precisas de algum exercicio, anda comigo ao jardim”

Eu estremeci, replicando: — “Ao jardim!… — Ninguem

encontrarás, me respondeo; os rebeldes tem revista, e

por estas duas horas estamos livres delles: pódes passear

sem susto.” Desci com meu irmão, e senti huma vida

nova. Quanto não he suave o bafo do zefiro na primave-

ra, o aroma das flores, e o gorgear das aves, para hu-

ma alma namorada! Eu cria todavia que o prazer que

experimentava era filho da longa reclusão que havia sof-

frido, e meu irmão suppôz o mesmo. Chamarão-no, e

como elle julgou conveniente á minha saude o exercicio,

deixou-me no jardim, recommendando-me que não me

demorasse muito fóra de casa. Na minha familia nunca

se curou do meu bem senão fisicamente. Estivesse triste

ou alegre, bem ou mal, era o mesmo, com tanto que

eu tivesse saude. Eu era tratada como hum ente irracio-

nal que não possue hum espirito, hum coração sensivel,

e huma alma pensadora. E então eu que tinha hum es-

pirito activo, hum coração terno, e huma alma arden-

te! Quando me vi no jardim corri todos os sitios em que

víra Henrique da minha janella, contemplei as estatuas

que elle havia olhado, colhi as flores que elle tinha chei-

rado. Em hum perfeito delirio corria de hum sitio a ou-

tro, e por fim entrei n’hum pequeno laranjal que ficava

contiguo ao jardim. Nunca tinha tido (nem tornei a ter)

hum momento na vida mais feliz do que aquelle. Sem

saber que amava, sentia o prazer que inspira huma pai-

xão no seu começo, e não sentia o receio que depois a

acompanha. Era feliz sem comprehender a razão porque

o era. Em cima de hum banco que estava á sombra de

huma larangeira vi hum livro, que alli talvez havia es-

quecido a Henrique. Este foi meu primeiro pensamento,

e com tudo o livro podia ser de algum de meus irmãos.

Para vencer minha timidez, disse a mim mesma que o

livro era de alguem que eu não sabia, mas não do nosso

hospede. Peguei pois nelle, e me sentei; o meu corpo

tremia, o que attribui ao cansaço. O livro era a Marilia

de Dirceo. Nunca eu tinha lido aquelles doces versos

(nunca havia lido nada); elles me arrebatárão o pensa-

mento. Eu chorava, beijava o livro…. o tempo voava

sem que eu o percebesse. Ia a erguer os olhos ao ceo na

força do meu enthusiasmo, quando dei com a vista em

Henrique, que a pouca distancia me contemplava com-

movido. Senti hum ardor nas faces, que depressa foi subs-

tituido por hum gêlo de neve, e que outra vez dêo logar

ao fogo ardente. Larguei o livro das mãos, e me descul-

pei balbuciando de ter pegado nelle. Henrique não tinha

ainda dito que o livro lhe pertencia, mas eu naquella

occasião já me não illudia, e estava certa que era delle.

Henrique o apanhou, e mo entregou, dizendo: — “Es-

pero que não terá por ser meu versos menos bellos, pois

que são feitos pelo bom Dirceo. Livre-se só vossa excel-

lencia de lêr a terceira parte, que bem se conhece não

pertence ao amante da formosa Marilia.” — Eu peguei

no livro sem saber o que fazia. O amavel militar me of-

fereceo o braço para me conduzir a casa, vendo que eu

mostrava a intenção de me retirar. Estava eu perplexa,

não sabendo como recusar, e receiando acceitar, ao mes-

mo tempo que o desejava, quando avistei meu pai do

outro lado do laranjal. Cahi sobre o banco, exclamando:

— “Misera de mim!” escondendo o rosto com o livro e

o lenço. — Neste sitio da narração de Adelaide, sua filha,

que brincava com flores sentada a seus pés, lançou hum

agudo grito. A mãi precipitou-se a vêr o que ella tinha.

Huma vespa lhe havia ferrado hum dedo. Adelaide es-

queceo n’hum momento todas as suas passadas angustias

para pensar só no incommodo de sua filha, e procurar

mitigar a dôr que ella sentia.  (Continúa.)

 

378[a]

 

HISTORIA DE ADELAIDE.41The title uses a different font from the rest of the text.

 

(Conclusão.)

 

No42The first letter of this word is in a font different from both the text and the title. dia seguinte emtanto que Julia embalava a sua

boneca, Adelaide continuou: — Meu pai, como hum fu-

racão do inverno, se lançou sobre mim, arrancou-me o

livro com furor, e o arremeçou longe; depois pegou-me

no braço com ímpeto, e me levou comsigo, chamando

no emtanto a Henrique (que interdicto nos olhava) sedu-

ctor, impio, rebelde, sectario da desordem e do crime.

Pensa tu o que sentiria meu coração! Passei todo aquel-

le dia entregue a mil angustias. Perto da noite a minha

criada me disse que o official se havia retirado repenti-

namente de nossa casa, e que o camarada que ficára a

arranjar as malas, me remettia hum livro que havia acha-

do no laranjal, e que tinha o meu nome. A criada em

me dando este recado detinha o livro na mão, bem certa

talvez que elle não era meu. Eu lho arranquei das mãos,

e vi que era a Marilia de Dirceo, com o seguinte escri-

pto a lapis na primeira folha: — “Á belleza e doçura op-

primida hum desgraçado envia.” — “Onde está o cama-

rada? perguntei eu em acto de entregar o livro. — Já se

ausentou tambem, me respondeo a criada; mas o livro

não he delle; se não pertence a vossa senhoria, será de

algum dos senhores. — Não, exclamei retendo o livro as-

sustada, elle he meu; porém queria dar alguma coisa a

esse soldado por o ter achado. — Não he mister, minha

senhora. Estes rebeldes não lhes falta nada.” — Desde

aquelle dia todos os meus instantes forão empregados a

chorar, a lêr a Marilia de Dirceo, e a pensar em Henri-

que. Huma manhãa, que me tinha levantado cedo por

não poder dormir, e que estava á janella que dava para

o jardim vi cahir huma laranja a meus pés. Ergui os

olhos assustada, e avistei Henrique debruçado no muro

do jardim. Córei e fiz-me pálida; o prazer de o vêr era

contrabalançado pelo pejo e pelo receio. Elle me fez hum

aceno de despedida com tristeza, e desappareceo. Aquel-

la rapida apparição me parecia hum engano dos sentidos,

mas a laranja jazia a meus pés para attestar a verdade

do successo. Levantei-a, e vi que só era a casca com hu-

ma carta dentro. Li-a primeiro timidamente, e depois

a tornei a lêr banhada em pranto. Henrique me dizia

nella que ia deixar aquelles sitios, e que não podia re-

solver-se a partir sem me dizer hum adeos, que talvez

seria eterno, e sem me pedir perdão da oppressão que

elle me havia acarretado com sua imprudencia. A minha

saude muito se alterou depois, e meu irmão mais velho,

que suppoz ser causa disto o tratamento duro de meu pai,

alcançou licença de me levar a passar dois mezes com hu-

ma velha parenta, que morava longe da nossa habitação.

Como nos arredores da morada della não havia tropas,

meu irmão deixou-me lá, e voltou para a companhia do

pai, porque só elle podia move lo a obrar com menos

imprudencia quando tinha a tratar com liberaes. Parece

que naquelle tempo o destino tomára a cargo favorecer o

meu amor. Pouco depois de meu irmão partir, chegou

Henrique com hum destacamento á povoação em que eu

estava. Primeiro, por pejo e receio, me esquivei aos ob-

sequios que já então Henrique francamente me fazia co-

mo amante; mas a minha paixão podia já mais que a

minha razão, e sem esquecer as difficuldades quasi in-

venciveis que delle me separavão, lhe deixei por fim sa-

ber, que ama-lo era já huma necessidade para mim. Hen-

rique, arrebatado de prazer, queria correr a meu pai,

pedir-lhe a minha mão. Dissuadi-o de tal, porque sabia

 

[378b]

 

a maneira com que esta proposta seria acceita, e o re-

solvi a esperar que meu irmão viesse buscar-me para o

dispôr a implorar por nós a meu pai. Foi em vão que

esperei que meu irmão cederia aos rogos de Henrique. A

todas as instancias que este lhe fez, meu irmão só res-

pondeo que eu era huma criança, que não tinha vontade

propria, e que o pai já me tinha destinado outro mari-

do. Fez-me depois levar á sege quasi sem sentidos, e me

deixou entregue a mim mesma. Elle via-me acabrunhada

de dôr para ousar reprehender-me, e tinha muita altivez

e frieza de caracter para procurar consolar-me. Depois

de meia hora de huma muda desesperação, comecei a

chorar e soluçar. Meu irmão parecia cego, surdo, e mu-

do: só quando estavamos perto da casa he que elle me

aconselhou que enchugasse os olhos, e que não deixasse

conhecer ao pai que no tempo que estivera fóra havia ad-

quirido huma tão grande molestia de cérebro. Apezar da

pouca doçura do discurso de meu irmão, eu conheci que

elle me dava hum conselho de amigo em me advertindo

que hum mais severo juiz me ia observar, e forcejei por

occultar em meu seio toda a força da minha dôr. Pouco

tempo tive porém de constrangimento. Henrique desde

que eu parti foi em meu seguimento. Não vendo outro

meio de me obter, foi lançar-se aos pés de meu pai a

pedir-lhe a minha mão, mas foi repellido com furor. Te-

ve depois Henrique o pezar de vêr que tinha feito au-

gmentar a minha escravidão sem proveito, pois fui de-

pois tratada com o maior rigor, e a elle foi-lhe impossivel

vêr-me, ou fazer-me chegar noticias suas. As cartas que

me escrevia erão todas interceptadas por meu pai, que

as rasgava, e lhas recambiava em mil pedaços. Eu no

emtanto soffria muito. Além de meus occultos pezares,

tinha a luctar com a vontade firme de meu pai, que que-

ria casar-me com hum seu amigo. Este amigo nunca o

havia sido meu, pois me não agradava, mas tinha a

grande qualidade para meu pai de ser realista exaltado,

e extremamente rico. Henrique soube que eu era ator-

mentada para casar com outro, e tomando sómente con-

selho do seu amor, e compaixão por meus soffrimentos,

tirou-me por justiça sem poder consultar-me antes. Se

elle tivesse podido communicar-me as suas intenções, eu

o desviaria de tal, porque não me resolveria nunca a dar

aquelle desgosto a meu pai; mas depois do passo dado,

por honra, delicadeza, e até por medo de meu pai, de-

via seguir a sorte de Henrique, e he o que fiz. Casei

com o homem que adorava; e minha alma, longe de fi-

car satisfeita, ficou entregue a mil desgostos. Como he

triste hum casamento que sabemos despedaça o coração

de hum pai, por duro que elle seja! Ao meu casamento

não assistio hum só parente. Os de Henrique estavão lon-

ge, os meus tomárão o partido de meu pai. Todo o meu

cuidado era disfarçar aos olhos de Henrique as minhas

penas. Que pensaria elle se me visse triste? Elle, que

terno e attencioso, procurava adivinhar-me os pensamen-

tos para me satisfazer?… Eu e Henrique buscámos todos

os meios de adoçar meu pai, mas quantos passos dava-

mos para este fim só servião a irrita-lo mais. Elle por

causa de suas contínuas imprudencias foi preso, e te-

ve a injusta e barbara lembrança de attribuir a meu

esposo a sua prisão. Henrique não só havia sido estranho

a este acontecimento, mas antes tanto trabalhou depois

que lhe fez restituir a liberdade. Neste tempo vierão os li-

beraes para Portugal, e Henrique me deixou só. Que

tempo amargurado passei na sua ausencia! Julia, que

nasceo nesse tempo, foi minha unica consolação. Findou

felizmente a renhida contenda dos liberaes com realistas,

e meu marido foi logo para me conduzir á sua patria.

Achou-me porém tão abatida, que receou que o trans-

 

379[a]

 

porte me fosse prejudicial, e demorou-se comigo alguns

mezes. Demora fatal! quantas lagrimas me tem causado,

e ha de causar até á morte?… Melhorei, e como não ti-

nha já esperanças de me reconciliar com a minha fami-

lia, apressei a nossa partida quanto pude. Eu temia (ai

de mim!), temia com justo motivo que algum inimigo

de meu marido lhe tirasse a vida. O partido liberal se

havia dividido em dois (em quantos se dividirá ainda?…),

e se olhava hum ao outro com a mesma raiva com que

o tigre olha o leão. Henrique tinha ficado no partido

menos exaltado, e alguns do partido contrario ameaça-

vão seus dias. Eu não tinha hum momento de socego,

hum instante de alegria. Fazia seguir meu marido de dia

e de noite, e ás vezes eu mesmo o seguia. Estava a par-

tir para Portugal huma embarcação, e nós tinhamos a

bordo quasi todos os nossos trastes. Começava eu a ga-

nhar esperança de me vêr livre de todos os terrores que

dia e noite me atormentavão. Já tinhamos a passar hu-

ma só noite em terra…. Ai! que noite, meu Deos!…

Henrique me fez deitar cedo para que me levantasse de

madrugada. Bem necessitava eu de repouso, que os sus-

tos contínuos me tinhão tornado doente. Quando meu

marido me vio deitada, dêo-me parte que ia ao seu gene-

ral, que o mandára chamar. Quiz-me oppôr a que sahisse,

mas como presistio no seu intento, pedi-lhe encarecida-

mente que levasse o criado. Desgraçada…. naquella ter-

rivel noite não me quiz fazer a vontade em nada. Cha-

mava rindo aos meus justos terrores, terrores panicos.

Não pude descançar hum minuto depois que elle partio.

Escutava com attenção todo o ruido que ouvia, deitava-

me, e sentava-me no leito, humas vezes suava, outras

arrefecia. Julia dormia placidamente no seu berço, e a

criada que estava sentada a seu lado dormia tambem. Eu

tinha vontade de as chamar com meus gritos, de me pôr

a pé, de correr a casa do general, mas ficava em meu

leito, que me parecia hum leito de espinhos. Porque não

mandei eu alguem em procura de Henrique?… porque

não escutei os conselhos do meu coração?… Huma má

vergonha, hum receio de fazer rir meu esposo á minha

custa me deteve. Que importava (oh ceos!) que elle de-

pois me escarnecesse?… Ouvi os passos de Henrique na

rua, e gritei com força que fossem abrir a porta. No

mesmo instante Henrique bateo, e o criado abrio e gri-

tou: — “Matárão o senhor Henrique!” — Saltei do leito,

e voei ao portal. O meu querido Henrique tinha hum

punhal cravado nas costas. Que desesperação! Mandei

todos os criados procurar socorro, e eu fiquei só no por-

tal com Henrique, que deitado de bruços gemia. Quiz

ergue-lo; elle me disse apertando-me mão: — “Ade-

laide…. minha cara Adelaide….” — Fóra de mim lan-

cei as mãos ao punhal para lho tirar; elle me disse: —

“Deixa-me; matas-me mais depressa.” — Então perdi

de todo a razão. Sahi, e o deixei lá ficar só. O meu sen-

tido era ir procurar socorros, mas perdi o tino e o jui-

zo. Inda me lembra de sahir, não me lembra de mais

nada. Quando voltei á razão estava nas visinhanças de

Portugal…. Os amigos de Henrique tinhão-no achado

morto quando o quizerão soccorrer; e fazendo-me depois

procurar, acharão-me desmaiada entre hum montão de

pedras, descalça, despida, toda cheia de pisaduras e de

sangue. Depois quando o julgárão conveniente me fizerão

elles embarcar com a minha Julia…. a minha unica con-

solação e alivio!…” — Adelaide soluçando lançou os bra-

ços a sua filha, e a apertou ao coração. A porta da sala

se abrio, e hum homem adiantado em annos entrou e

observou com ternura a mãi e a filha; depois precipitan-

do-se para ellas, exclamou: — “Minha filha!… minha

querida neta!…” — E as abraçou com transporte.

Miscellaneous Works by Maria Peregrina de Sousa

Posted

4 July 2025

Last Updated

5 December 2025

Footnotes

Footnotes
1 sofrimentos
2 Formulação antiga do pretérito perfeito que significa “perdi”.
3 queremos
4 fixou habitação
5 a mágoa, o sofrimento
6 felicidade
7 Neste contexto a expressão significa “infelizmente”.
8 volto
9 sofrer
10 desgosto
11 desejo intensamente
12 a terra que foi o lugar do seu nascimento
13 colérico
14 Nesta época, a ordem das palavras na frase poderia ser usada de forma diferente da dos dias de hoje. Daí a formulação acima.
15 adornar
16 desmazelo
17 alojado
18 muito
19 operação de revista das tropas que tinha como objectivo assegurar a disciplina e organização
20 “esquecer a”: forma antiga de dizer “de que Henrique se havia esquecido”
21 Título de um texto lírico escrito por Tomás António Gonzaga e publicado em 1792.
22 Esta passagem é o final da primeira parte do conto, que foi publicado em vários números do periódico.
23 enquanto
24 significado antigo: estupefacto, imóvel.
25 Não é necessário.
26 pudor
27 sucedido
28 gentilezas
29 recebida
30 carruagem
31 devolvia
32 Neste contexto tem o sentido de “entretanto”.
33 fugiu com ela
34 alheio
35 pertences, mobília
36 sensatez, prudência
37 com efusão, entusiasmo
38 The title uses a different font from the rest of the text.
39 The first letter of this word is in a font different from both the text and the title.
40 This word should be “immediatamente”, but the syllable “ta” is omitted in the original.
41 The title uses a different font from the rest of the text.
42 The first letter of this word is in a font different from both the text and the title.