Pedagogical Edition
AMOR D’UM NEGRO
Que mulher tão linda aquela
Que entre palmares diviso,
Nunca vi outra donzela
Com tão magico sorriso!
Se me fosse dado amá-la,
Dirigir-lhe ainda uma fala,
Pintar-lhe a minha paixão!
Pobre negro! renúncia
Ao amor fatal que um dia
Fará perder-te a razão!…
A razão!… Quero perdê-la,
Adorando-a eternamente!
Tento em vão ‘esquecer-me d’ela
Que a sua imagem na mente
Vai comigo a toda a parte!
Sim, ó branca eu hei de amar-te
Mesmo ao ver o teu rigor!
Hei de ver-te sem ser visto;
Mas á dor eu não resisto
De perder o teu amor!…
Negro, mas independente,
Tenho escravos e riqueza,
Ideias grandes na mente
E tenho n’alma a nobreza
Que inspiram honra e virtude!
Compreender as letras pude,
Tenho estudo, erudição
Para exprimir a donzela
Tudo que sinto por ela
N’este ardente coração!
E sobre um banco de relva
Onde se assentava Alzira,
O negro deixa uma carta
Que ela a sorrir logo abrira.
E falava só d’amores,
Mas n’um estilo eloquente
Que enlevou a jovem tanto
Que a fez amar ternamente.
Quanto pôde a inteligência
N’um coração ilustrado!
Ama-se a quem a revela,
Sem se ter inda encontrado!
Via através das palmeiras
Jorge, o negro enamorado,
Como ela lia atenta
Seu dizer apaixonado,
E depois todos os dias
Á mesma hora recebia
Alzira a carta d’amores
Abrindo-a com alegria,
E como ao desconhecido
Ella amava com paixão!
Como sentia por ele
Pulsar forte o coração!
Não compreendia a donzela
Amante tão singular
Que não buscava encontrá-la
Para a ver, pra lhe falar!
Se tiver — dizia a furto —
Um tão bonito semblante
Quanto o seu dizer é lindo
E o seu estilo é brilhante!
Ah! Deixa que eu te conheça
Encanto da minha vida!
Se tens amor, por que foges
Da mulher que te é querida!
Amanhã no bosque, á noite,
Junto d’aquela palmeira,
Onde tu dizes me viras
Assentada a vez primeira;
Amanhã ali t’espero,
Se tu és da terra um ser!…
Mas se do espaço és um gênio,
Deixa-me então só morrer!…
É forçoso o negro disse,
Um terrível desengano!
Ah! se a noite me encobrisse,
Se prolongasse este engano!…
Sim; irei! Ella decida
A’ vontade d’esta vida;
Mas se cruel me odiar,
Não sofrerei seu desprezo
Que este seio d’amor preso,
Sem ela não quer pulsar!
A noite chega enfim, d’amor, receio,
Essa noite que tanto ela ansiava;
Vacilante, eis que parte e um mago enleio
O leva para Alzira que o esperava:
Escura estava a noite e carregada
Quando o negro no bosque Alzira chama,
—«Alzira, eis-me a teu lado ó minha amada
«Eis quem por ti d’amor todo se inflama!.
—«Vem mancebo eloquente,
Alma de meu coração!
Fanal que em trevas me guia
Que na terra me alumia
Que me dá inspiração!…
Vem assentar-te a meu lado
E dizer se mais amor
Pôde alguém já revelar-te,
Se foste amado de esta arte,
Com mais fé, com mais ardor!
E tremendo o negro amante,
Junto á virgem se curvou;
Toma-lhe a destra mimosa,
Alva como a nívea rosa
E um beijo imprimir-lhe ousou!
—«Se a teus pés não vim donzela,
Há mais tempo ajoelhar
É que perder-te eu temia,
Perder tudo n’um só dia,
Ver teu amor acabar!…
«Alzira! Nesta alma existe
A virtude, amor, nobreza;
Eis, por que ela não resiste
Ao desejo da franqueza:
Este que tens a teu lado,
Este amante desgraçado,
Vae seu crime revelar!…
Se é crime, virgem amar-te,
Idear-te em toda a parte,
Dos puros anjos a par!
«Se do teu misero amante,
Amasses só os talentos,
Se pra te fosse bastante
Os seus nobres sentimentos!…
Poderá já n’este dia
Dizer-te por que fugia,
Dizer-te que negro sou!…
Sem recear minha sorte…
Dá-me agora a vida, ou morte
Que morrer por ti eu vou!…
N’isto etérea lua frisante
D’um relâmpago alumia,
Do gentil negro o semblante
Que Alzira tremula via
E recua espavorida!
E com a razão já perdida
Cai desmaiada no chão!
Eis que o amante fremente
Toma um punhal reluzente,
Cravando-o no coração!
E quando ela volta á vida
Vê á frouxa luz d’aurora,
Do negro a larga ferida;
Então lamenta-o e chora!
Vive, ela diz, triste amante,
Vive, ser-te-ei constante,
Vive, vive para amar!
Ele os olhos inda abrindo,
Diz para Alzira sorrindo—
—Assim é doce expirar!…
Diplomatic Transcription
AMOR D’UM NEGRO
Que mulher tão linda aquella
Que entre palmares diviso,
Nunca vi outra donzella
Com tão magico sorriso!
Se me fosse dado amal-a,
Dirigir-lhe inda uma falla,
Pintar-lhe a minha paixão!
Pobre negro! renuncia
Ao amor fatal que um dia
Fará perder-te a razão!…
A razão!… Quero perdel-a,
Adorando-a eternamente!
Tento em vão ‘esquecer-me d’ella
Que a sua imagem na mente
Vae commigo a toda a parte!
Sim, ó branca eu hei-de amar-te
Mesmo ao ver o teu rigor!
Hei-de ver-te sem ser visto;
Mas á dor eu não resisto
De perder o teu amor!…
Negro mas independente,
Tenho escravos e riqueza,
Idéas grandes na mente
E tenho n’alma a nobreza
Que inspiram honra e virtude!
Comprehender as lettras pude,
Tenho estudo, erudção
Para exprimir a donzella
Tudo que sinto por ella
N’este ardente coração!
E sobre um banco de relva
Onde se assentava Alzira,
O negro deixa uma carta
Que ella a sorrir logo abrira.
E fallava só d’amores,
Mas n’um estylo eloquente
Que enlevou a joven tanto
Que a fez amar ternamente.
Quanto póde a intelligencia
N’um coração illustrado!
Ama-se a quem a revela,
Sem se ter inda encontrado!
Via atravez das palmeiras
Jorge, o negro enamorado,
Como ella lia attenta
Seu dizer apaixonado,
E depois todos os dias
Á mesma hora recebia
Alzira a carta d’amores
Abrindo-a com alegria,
E como ao desconhecido
Ella amava com paixão!
Como sentia por elIe
Pulsar forte o coração!
Não comprehendia a donzella
Amante tão singular
Que não buscava encontral-a
Para a ver, p’ra lhe fallar!
Se tiver — dizia a furto —
Um tão bonito semblante
Quanto o seu dizer é lindo
E o seu estylo é brilhante!
Ah! Deixa que eu te conheça
Encanto da minha vida!
Se tens amor, por que foges
Da mulher que te é querida!
Ámanhã no bosque, á noute,
Junto d’aquella palmeira,
Onde tu dizes me viras
Assentada a vez primeira;
Ámanhã alli t’espero,
Se tu és da terra um sér!…
Mas se do espaço és um genio,
Deiza-me então só morrer!…
É forçoso o negro disse,
Um terrivel desengano!
Ah! se a noute me encobrisse,
Se prolongasse este engano!…
Sim; irei! Ella decida
A’ vontade d’esta vida;
Mas se cruel me odear,
Não soffrerei seu despreso
Que este seio d’amor preso,
Sem ella nõ quer pulsar!
A noute chega em fim, d’amor, receio,
Essa noite que tanto ella anciava;
Vacillante, eis que parte e um mago enleio
O leva para Alzira que o esperava :
Escura estava a noute e carregada
Quando o negro no bosque Alzira chama,
—«Alzira, eis-me a teu lado ó minha amada
«Eis quem por ti d’amor todo s’inflamma!.
—«Vem mancebo eloquente,
Alma de meu coração!
Phanal que em trevas me guia
Que na terra me allumia
Que me dá inspiração!…
Vem assentar-te a meu lado
E dizer se mais amor
Pôde alguem já revelar-te,
Se foste amado d’est’arte,
Com mais fé, com mais ardor!
E tremendo o negro amante,
Junto á virgem se curvou;
Toma-lhe a dextra mimosa,
Alva como a nivia rosa
E um beijo imprimir-lhe ousou!
—«Se a teus pés não vim donzella,
A’ mais tempo ajoelhar
E’ que perder-te eu temia,
Perder tudo n’um só dia,
Vêr teu amor acabar!…
«Alzira! N’est’alma existe
A virtude, amor, nobreza;
Eis, por que ella não resiste
Ao desejo da franqueza:
Este que tens a teu lado,
Este amante desgraçado,
Vae seu crime revelar!…
Se é crime, virgem amar-te,
Ideiar-te em toda a parte,
Dos puros anjos a par!
«Se do teu misero amante,
Amasses só os talentos,
Se p’ra ti fosse bastante
Os seus nobres sentimentos!…
Podéra já n’este disa
Dizer-te por que fugia,
Dizer-te que negro sou!…
Sem receiar minha sorte…
Dá-me agora a vida, ou morte
Que morrer por ti eu vou!…
N’isto ethérea lua frisante
D’um relampago allumia,
Do gentil negro o semblante
Que Alzira tremula via
E recua espavorida!
E co’a rasão já perdida
Cáe desmaiada no chão!
Eis que o amante fremente
Toma um punhal reluzente,
Cravando-o no coração !
E quando ella volta á vida
Vê á frouxa luz d’aurora,
Do negro a larga ferida;
Então lamenta-o e chóra!
Vive, ella diz, triste amante,
Vive, ser-te-hei constante,
Vive, vive para amar!
Elle os olhos inda abrindo,
Diz para Alzira sorrindo—
—Assim é doce expirar!…