Amor d’um negro

Pedagogical Edition

Edited by Caroline Cundick

AMOR D’UM NEGRO

 

Que mulher tão linda aquela

Que entre palmares diviso,

Nunca vi outra donzela

Com tão magico sorriso!

Se me fosse dado amá-la,

Dirigir-lhe ainda uma fala,

Pintar-lhe a minha paixão!

Pobre negro! renúncia

Ao amor fatal que um dia

Fará perder-te a razão!…

 

A razão!… Quero perdê-la,

Adorando-a eternamente!

Tento em vão ‘esquecer-me d’ela

Que a sua imagem na mente

Vai comigo a toda a parte!

Sim, ó branca eu hei de amar-te

Mesmo ao ver o teu rigor!

Hei de ver-te sem ser visto;

Mas á dor eu não resisto

De perder o teu amor!…

 

Negro, mas independente,

Tenho escravos e riqueza,

Ideias grandes na mente

E tenho n’alma a nobreza

Que inspiram honra e virtude!

Compreender as letras pude,

Tenho estudo, erudição

Para exprimir a donzela

Tudo que sinto por ela

N’este ardente coração!

 

E sobre um banco de relva

Onde se assentava Alzira,

O negro deixa uma carta

Que ela a sorrir logo abrira.

 

E falava só d’amores,

Mas n’um estilo eloquente

Que enlevou a jovem tanto

Que a fez amar ternamente.

 

Quanto pôde a inteligência

N’um coração ilustrado!

Ama-se a quem a revela,

Sem se ter inda encontrado!

 

Via através das palmeiras

Jorge, o negro enamorado,

Como ela lia atenta

Seu dizer apaixonado,

 

E depois todos os dias

Á mesma hora recebia

Alzira a carta d’amores

Abrindo-a com alegria,

 

E como ao desconhecido

Ella amava com paixão!

Como sentia por ele

Pulsar forte o coração!

 

Não compreendia a donzela

Amante tão singular

Que não buscava encontrá-la

Para a ver, pra lhe falar!

 

Se tiver — dizia a furto —

Um tão bonito semblante

Quanto o seu dizer é lindo

E o seu estilo é brilhante!

 

Ah! Deixa que eu te conheça

Encanto da minha vida!

Se tens amor, por que foges

Da mulher que te é querida!

 

Amanhã no bosque, á noite,

Junto d’aquela palmeira,

Onde tu dizes me viras

Assentada a vez primeira;

 

Amanhã ali t’espero,

Se tu és da terra um ser!…

Mas se do espaço és um gênio,

Deixa-me então só morrer!…

 

É forçoso o negro disse,

Um terrível desengano!

Ah! se a noite me encobrisse,

Se prolongasse este engano!…

Sim; irei! Ella decida

A’ vontade d’esta vida;

Mas se cruel me odiar,

Não sofrerei seu desprezo

Que este seio d’amor preso,

Sem ela não quer pulsar!

 

A noite chega enfim, d’amor, receio,

Essa noite que tanto ela ansiava;

Vacilante, eis que parte e um mago enleio

O leva para Alzira que o esperava:

 

Escura estava a noite e carregada

Quando o negro no bosque Alzira chama,

—«Alzira, eis-me a teu lado ó minha amada

«Eis quem por ti d’amor todo se inflama!.

 

—«Vem mancebo eloquente,

Alma de meu coração!

Fanal que em trevas me guia

Que na terra me alumia

Que me dá inspiração!…

 

Vem assentar-te a meu lado

E dizer se mais amor

Pôde alguém já revelar-te,

Se foste amado de esta arte,

Com mais fé, com mais ardor!

 

E tremendo o negro amante,

Junto á virgem se curvou;

Toma-lhe a destra mimosa,

Alva como a nívea rosa

E um beijo imprimir-lhe ousou!

 

—«Se a teus pés não vim donzela,

Há mais tempo ajoelhar

É que perder-te eu temia,

Perder tudo n’um só dia,

Ver teu amor acabar!…

 

«Alzira! Nesta alma existe

A virtude, amor, nobreza;

Eis, por que ela não resiste

Ao desejo da franqueza:

Este que tens a teu lado,

Este amante desgraçado,

Vae seu crime revelar!…

Se é crime, virgem amar-te,

Idear-te em toda a parte,

Dos puros anjos a par!

«Se do teu misero amante,

Amasses só os talentos,

Se pra te fosse bastante

Os seus nobres sentimentos!…

Poderá já n’este dia

Dizer-te por que fugia,

Dizer-te que negro sou!…

Sem recear minha sorte…

Dá-me agora a vida, ou morte

Que morrer por ti eu vou!…

 

N’isto etérea lua frisante

D’um relâmpago alumia,

Do gentil negro o semblante

Que Alzira tremula via

E recua espavorida!

E com a razão já perdida

Cai desmaiada no chão!

Eis que o amante fremente

Toma um punhal reluzente,

Cravando-o no coração!

 

E quando ela volta á vida

Vê á frouxa luz d’aurora,

Do negro a larga ferida;

Então lamenta-o e chora!

Vive, ela diz, triste amante,

Vive, ser-te-ei constante,

Vive, vive para amar!

Ele os olhos inda abrindo,

Diz para Alzira sorrindo—

—Assim é doce expirar!…

Diplomatic Transcription

Transcribed by Caroline Cundick

AMOR D’UM NEGRO

 

Que mulher tão linda aquella

Que entre palmares diviso,

Nunca vi outra donzella

Com tão magico sorriso!

Se me fosse dado amal-a,

Dirigir-lhe inda uma falla,

Pintar-lhe a minha paixão!

Pobre negro! renuncia

Ao amor fatal que um dia

Fará perder-te a razão!…

 

A razão!… Quero perdel-a,

Adorando-a eternamente!

Tento em vão ‘esquecer-me d’ella

Que a sua imagem na mente

Vae commigo a toda a parte!

Sim, ó branca eu hei-de amar-te

Mesmo ao ver o teu rigor!

Hei-de ver-te sem ser visto;

Mas á dor eu não resisto

De perder o teu amor!…

 

Negro mas independente,

Tenho escravos e riqueza,

Idéas grandes na mente

E tenho n’alma a nobreza

Que inspiram honra e virtude!

Comprehender as lettras pude,

Tenho estudo, erudção

Para exprimir a donzella

Tudo que sinto por ella

N’este ardente coração!

 

E sobre um banco de relva

Onde se assentava Alzira,

O negro deixa uma carta

Que ella a sorrir logo abrira.

 

E fallava só d’amores,

Mas n’um estylo eloquente

Que enlevou a joven tanto

Que a fez amar ternamente.

 

Quanto póde a intelligencia

N’um coração illustrado!

Ama-se a quem a revela,

Sem se ter inda encontrado!

 

Via atravez das palmeiras

Jorge, o negro enamorado,

Como ella lia attenta

Seu dizer apaixonado,

 

E depois todos os dias

Á mesma hora recebia

Alzira a carta d’amores

Abrindo-a com alegria,

 

E como ao desconhecido

Ella amava com paixão!

Como sentia por elIe

Pulsar forte o coração!

 

Não comprehendia a donzella

Amante tão singular

Que não buscava encontral-a

Para a ver, p’ra lhe fallar!

 

Se tiver — dizia a furto —

Um tão bonito semblante

Quanto o seu dizer é lindo

E o seu estylo é brilhante!

 

Ah! Deixa que eu te conheça

Encanto da minha vida!

Se tens amor, por que foges

Da mulher que te é querida!

 

Ámanhã no bosque, á noute,

Junto d’aquella palmeira,

Onde tu dizes me viras

Assentada a vez primeira;

 

Ámanhã alli t’espero,

Se tu és da terra um sér!…

Mas se do espaço és um genio,

Deiza-me então só morrer!…

 

É forçoso o negro disse,

Um terrivel desengano!

Ah! se a noute me encobrisse,

Se prolongasse este engano!…

Sim; irei! Ella decida

A’ vontade d’esta vida;

Mas se cruel me odear,

Não soffrerei seu despreso

Que este seio d’amor preso,

Sem ella nõ quer pulsar!

 

A noute chega em fim, d’amor, receio,

Essa noite que tanto ella anciava;

Vacillante, eis que parte e um mago enleio

O leva para Alzira que o esperava :

 

Escura estava a noute e carregada

Quando o negro no bosque  Alzira chama,

—«Alzira, eis-me a teu  lado ó minha amada

«Eis quem por ti d’amor todo s’inflamma!.

 

—«Vem mancebo eloquente,

Alma de meu coração!

Phanal que em trevas me guia

Que na terra me allumia

Que me dá inspiração!…

 

Vem assentar-te a meu lado

E dizer se mais amor

Pôde alguem já revelar-te,

Se foste amado d’est’arte,

Com mais fé,  com mais ardor!

 

E tremendo o negro amante,

Junto á virgem se curvou;

Toma-lhe a dextra mimosa,

Alva como a nivia rosa

E um beijo imprimir-lhe ousou!

 

—«Se a teus pés não vim donzella,

A’ mais tempo ajoelhar

E’ que perder-te eu temia,

Perder tudo n’um só dia,

Vêr teu amor acabar!…

 

«Alzira! N’est’alma existe

A virtude, amor, nobreza;

Eis, por que ella não resiste

Ao desejo da franqueza:

Este que tens a teu lado,

Este amante desgraçado,

Vae seu crime revelar!…

Se é crime, virgem amar-te,

Ideiar-te em toda a parte,

Dos puros anjos a par!

«Se do teu misero amante,

Amasses só os talentos,

Se p’ra ti fosse bastante

Os seus nobres sentimentos!…

Podéra já n’este disa

Dizer-te por que fugia,

Dizer-te que negro sou!…

Sem receiar minha sorte…

Dá-me agora a vida, ou morte

Que morrer por ti eu vou!…

 

N’isto ethérea lua frisante

D’um relampago allumia,

Do gentil negro o semblante

Que Alzira  tremula via

E recua espavorida!

E co’a rasão já perdida

Cáe desmaiada no chão!

Eis que o amante fremente

Toma um punhal reluzente,

Cravando-o no coração !

 

E quando ella volta á vida

Vê á frouxa luz d’aurora,

Do negro a larga ferida;

Então lamenta-o e chóra!

Vive,  ella diz,  triste amante,

Vive,  ser-te-hei constante,

Vive,  vive para amar!

Elle os olhos inda abrindo,

Diz para Alzira sorrindo—

—Assim é doce expirar!…