Soneto Nosso Deus, ofendido gravemente
Edited by Cassie Sudekum, Elliana Shillig Venâncio
Transcribed by Cassie Sudekum
Soneto
Nosso Deus, ofendido gravemente,
pelos pecados do mundo endurecido,
e das leis de Jesus quase esquecido,
castigo ameaçava, competente.
Este Pai e Senhor onipotente,
estando tantas vezes ofendido,
ao mundo, pelo ver arrependido,
o perdão lhe outorgou, pio e clemente. 1Perdão ao mundo com piedade (pio) e misericórdia (clemente).
Louvado seja, Senhor, o fundamento
que teve a vossa grande Providência
em deter no céu este elemento.
Logo o mundo alcançou, com veemência,
remédio para o corpo, no sustento,
e para a alma, também, na penitência.
Glosa
I
Pecava o mundo cego e desumano,
sem temor, sem reparo e sem destino,
ofendendo um Senhor tão soberano,
ultrajando a um Deus todo divino;
porém mostrou-lhe o Céu o desengano
na secura do tempo (assim me inclino),
para mostrar que estava de tal gente
nosso Deus ofendido gravemente.
II
Rebelde o coração dos pecadores,
quis Deus, por tal dureza e tal secura,
avisá-los no tempo e seus ardores,
que fruto não produz a terra dura;
mas, ouvindo benigno os seus clamores,
em que perdão pediam com ternura,
mostrou-se o mesmo Deus compadecido
dos pecados do mundo endurecido.
III
Inspirou aos fiéis que recorressem
às imagens de Cristo piedosas,
e também os moveu a que corressem
para as de sua Mãe prodigiosas.
Deu-lhes auxílios para que fizessem
públicas penitências rigorosas;
por estar todo o mundo já perdido,
e das leis de Jesus quase esquecido.
IV
Pudera este Senhor tremendo e forte2Digno de temor reverente (tremendo) e dotado de força suprema e incontestável (forte).
castigar esta nossa rebeldia,
lançando-nos, ao impulso de um só corte,
onde a pena sem fim sempre seria;
porém quis advertir-nos de outra sorte,
porque, no tempo estéril que corria,
ao mundo, que se achava negligente,
castigo ameaçava competente.3Adequado, justo ou proporcional.
V
O primeiro milagre não se ignora,
nesta casa se viu (ó, que portento!)4Prodígio, maravilha, ou sinal sobrenatural.
em um Senhor dos Passos, que se adora
na mais alta capela do convento:
dela o Senhor saiu, e sem demora
se viu nublado o Céu, mudado o vento,
mostrando assim prodígios de repente,
este Pai e Senhor onipotente.
VI
Desta vila saiu o Senhor morto,
de muita penitência acompanhado,
e buscando este Pai o melhor porto,
na Esperança ficou depositado;
o povo penitente, água e conforto,
deste mesmo Senhor tem alcançado,
em favor na súplica pedido,
estando tantas vezes ofendido.
VII
Esta imagem se viu tão adorada,
nesse ilustre Convento da Esperança,5O Convento da Esperança, em Lisboa, era um convento feminino dedicado a Nossa Senhora da Esperança. Localizado nas proximidades das zonas da Alcântara ou da Madragoa.
que a mesma admiração aniquilada,
tão soberanos cultos não alcança.
A penitência foi continuada,
e agora tem corrido em tal bonança,6Um período de tranquilidade, alívio e graça espiritual.
que bem mostra o Senhor que tem ouvido
ao mundo, pelo ver arrependido.
VIII
Outra imagem saiu também dos passos,
que veio em procissão por várias ruas,
procurou descansar em ternos braços,
nas chagas os achou de esposas suas;
caiu logo do Céu, sem embaraços,
muitas correntes de águas não comuns;
e vendo Deus o povo penitente,
o perdão lhe outorgou7concedeu, autorizou, pio e clemente.
IX
Fez-se uma procissão, por diligência
desse bispo-deão8Era usado para designar um bispo que também exercia a função de deão de uma catedral, frequentemente na sé patriarcal ou episcopal de Lisboa, mas provavelmente é uma referência específica … Continue reading que nela ia,
revestido de grande penitência,
com todo o seu rebanho que o seguia;
foi descalço também Sua Excelência,
que o coração, de vê-lo, se partia,
por dar exemplo aos mais—e deste intento
louvado, Senhor, seja o fundamento.
X
Uma imagem saiu, em que se esmera
a devoção na corte lusitana,
que com a Cruz às costas se venera
na minha amada ordem graciana.9Ordem de Nossa Senhora da Graça, ligada aos agostinianos, com presença marcante em Portugal.
Na basílica esteve—ó, quem pudera
agradecer, imagem soberana,
a inundação geral, beneficência,
que teve a vossa grande providência.
XI
Às imagens devotas recorria
o lusitano povo magoado,
e se tirou da minha freguesia
um Senhor que à coluna está atado;10Amarrado, preso, ou ligado por cordas ou laços.
água e perdão o povo lhe pedia,
e bem no que choveu se tem mostrado:
que consistiu da culpa o sentimento
em deter lá no Céu esse elemento.
XII
Do templo dos egrégios11Distinto, ilustre, notável, excelente pregadores,
em que a melhor virtude se recreia,12Encontrar deleite, florescer, ou ser nutrida espiritualmente.
saiu aquela Mãe dos pecadores
que Virgem do Rosário13Uma imagem concreta e venerada da Virgem Maria se nomeia.
Conseguiu para nós grandes favores,
e do que bem se viu melhor se creia,
que o perdão que pediu nesta afluência14Grande presença ou concentração de pessoas.
logo o mundo alcançou com veemência.
XIII
Choveu água em tão grande quantidade,
quando ia em procissão a Mãe do Céu,
que, por ordem da augusta majestade,
para a patriarcal se recolheu.
E aquela fiel comunidade,
ganhando a todo custo o seu troféu,
alcançou do Senhor, em tal tormento,
remédio para o corpo no sustento.
XIV
Premiou o monarca, a todo o custo,
Da Ordem Dominicana15A Ordem dos Pregadores, fundada por São Domingos de Gusmão no século XIII. É uma das ordens mais influentes da Igreja Católica.
o grande excesso,
porque sabe o discreto Rei Augusto
fazer da devoção maior apreço.
Vivei, Senhor, vivei! Pois pio e justo,
para as ações reais vos reconheço;
santo para o governo na prudência,
e para a alma também na penitência.
Diplomatic Transcription
SONETO.
NOSSO Deos offendido gravemente ,
Dos peccados do mundo endurecido ,
E das leys de JESUS quasi esquecido ,
Castigo ameaçava competente,
Este Pay , e Senhor Omnipotente,
Estando tantas vezes offendido ,
Ao mundo pelo ver arrependido ,
O perdaõ lhe otorgou pio, e clemente.
Lauvado , Senhor , seja o fundamento ,
Que teve a vossa grande Providencia ,
Em deter la no Ceo este Elemento.
Logo o mundo alcançou com vehemencia
Remedio para o corpo no sustento,
E para a alma tambem na penitencia.
GLOSA.
I.
PEccava o mundo cego, e deshumano ,
Sem temor , sem reparo, e sem destino ,
Offendendo hum Senhor taõ Soberano ,
Ultrajando a hum Deos todo Divino ;
Porèm mostrou-lhe o Ceo o desengano
Na secura do tempo , ( assim me inclino )
Para mostrar que estava de tal gente
Nosso Deos Offendido gravemente.
II.
Rebelde o coracaõ dos peccadores
Quiz Deos por tal dureza, e tal secura,
Avizallos no tempo, e seus ardores ,
Que fruto naõ produz a terra dura;
Mas ouvindo benigno os seus clamores,
Em que perdaõ pediaõ com ternura ,
Se mostra o mesmo Deos compadecido,
Dos peccados do mundo endurecido.
III.
Inspirou aos Fieis . que recorressem
A’s Imagens de Christo piedosas ,
E tambem os moveo a que corressem,
Para às de sua Mãy prodigiosas.
Deo-lhe auxilios para que fizessem
Publicas penitencias rigorosas ;
Por estar todo o mundo jà perdido,
E das leys de Jesus quasi esquecido.
IV.
Pudera este Senhor tremendo , e forte
Castigar esta nossa rebeldia,
Lançando nos a impulsos de hum só corte,
Onde a pena sem sim sempre seria :
Porém quiz advertir-nos de outra sorte ;
Porque no tempo esteril que corria ,
Ao mundo, que se achava negligente,’
Castigo ameaçava competente
V.
O primeiro milagre naó se ignora,
Nesta caza se vio; ( oh que portento ! )
Em hum Senhor dos passos, que se adora
Na mais alta Capella do Convento :
Della o Senhor sahio, e sem demora
Se vio nublado o Ceo, mudado o vento,
Mostrando assim prodigios de repente ,
Este Pay, e Senhor Omnipotente.
VI.
Desta Villa sahio o Senhor morto ,
De muita penitencia acompanhado,
E buscando este Pay o melhor porto,
Na Esperança ficou depositado;
O povo penitente agoa, e conforto,
Deste mesmo Senhor, tem alcançado,
Em o favor na supplica pedido,
Estando tantas vezes offendido.
VII.
Esta Imagem se vio taõ adorada ,
Nesse illustre Convento da Esperança,
Que a mesma admiraçaõ anniquilada,
Taõ soberanos cultos naõ alcança.
A penitencia foi continuada ,
E agoa tem corrido em tal bonança ;
Que bem mostra o Senhor, que tem ouvido
Ao mundo , pelo ver arrependido.
VIII.
Outra Imagem sahio tambem dos Passos,
Que veyo em procissaõ por varias ruas,
Procurou descançar em ternos braços,
Nas Chagas os achou de Esposas suas:
Cahio logo do Ceo sem embaraços ,
Muitas correntes de agoas naõ commuas;
E vendo Deos o povo penitente
O perdao lhe otorgou pio, e clemente.
IX.
Fez huma procissaõ por deligencia
Desse Bispo Deaõ, que nella hia ,
Revestido de grande penitencia ,
Com todo o seu rebanho, que o seguia :
Foi descalço tambem Sua excellencia ,
Que o coraçaõ de vêl-lo se partia,
Por dar exemplo aos mais, e deste intento
Louvado , Senhor , seja o fundamento.
X.
Huma Imagem sahio , em que se esmera ;
A devoçaõ na Corte Lusitana,
Que com a Cruz às costas se venera
Na minha amada Ordem Graciana.
Na Basilica esteve : oh quem pudera
Agradecer , Imagem soberana ,
A inundaçaõ geral, beneficencia,
Que teve a vossa grande Providencia.
XI.
A’s Imagens devotas recorria ,
O Lusitano povo magoado ,
E se tirou da minha Freguesia ,
Hum Senhor, que à coluna està atado :
Agoa , e perdaõ o povo lhe pedia ;
E bem no que choveo se tem mostrado:
Que consistio da culpa o sentimento,
Em deter là no Ceo esse elemento.
XII.
Do Templo dos Egregios Prègadores,
Em que a melhor virtude se recrea ,
Sahio aquella Mãy dos peccadores
Que Virgem do Rosario se nomea.
Conseguio para nòs grandes favores ,
E do que bem se vio melhor se crea ,
Que o perdaõ que pedio nesta affluencia
Logo o mundo alcançou com vehemencia.
XIII.
Choveo agoa em taõ grande quantidade ,
Quando hia em procissaõ a Mãy do Ceo ,
Que por ordem da Augusta Magestade,
Para a Patriarcal se recolheo.
E aquella fiel Communidade,
Ganhando a todo custo o seu tropheo ,
Alcançou do Senhor em tal tormento ,
Remedio para o corpo no sustento.
XIV.
Premiou o Monarca a todo o custo ,
Da Ordem Dominica o grande excesso ,
Porque sabe o discreto Rey Augusto ,
Fazer da devoçaõ mayor apreço.
Vivei, Senhor, vivei: pois pio, e justo ;
Para as acçoens Reaes vos reconheço ;
Santo para o governo na prudencia ,
E para a alma tambem na penitencia.
Online Resources
Works by Soror Tomásia Caetana de Santa Maria
- Relação Nova que a piedosa devoção dedica à soberana imagem de Nossa Senhora do Rosário, situada no Real Convento de São Domingos desta cidade, na qual se atribui, como castigo de Deus pelos pecados do mundo, a falta de água que anunciava esterilidade. (1)
Posted
24 November 2025
Last Updated
6 February 2026
Footnotes
| ↑1 | Perdão ao mundo com piedade (pio) e misericórdia (clemente). |
|---|---|
| ↑2 | Digno de temor reverente (tremendo) e dotado de força suprema e incontestável (forte). |
| ↑3 | Adequado, justo ou proporcional. |
| ↑4 | Prodígio, maravilha, ou sinal sobrenatural. |
| ↑5 | O Convento da Esperança, em Lisboa, era um convento feminino dedicado a Nossa Senhora da Esperança. Localizado nas proximidades das zonas da Alcântara ou da Madragoa. |
| ↑6 | Um período de tranquilidade, alívio e graça espiritual. |
| ↑7 | concedeu, autorizou |
| ↑8 | Era usado para designar um bispo que também exercia a função de deão de uma catedral, frequentemente na sé patriarcal ou episcopal de Lisboa, mas provavelmente é uma referência específica aqui, embora não haja informações suficientes para saber exatamente quem era. |
| ↑9 | Ordem de Nossa Senhora da Graça, ligada aos agostinianos, com presença marcante em Portugal. |
| ↑10 | Amarrado, preso, ou ligado por cordas ou laços. |
| ↑11 | Distinto, ilustre, notável, excelente |
| ↑12 | Encontrar deleite, florescer, ou ser nutrida espiritualmente. |
| ↑13 | Uma imagem concreta e venerada da Virgem Maria |
| ↑14 | Grande presença ou concentração de pessoas. |
| ↑15 | A Ordem dos Pregadores, fundada por São Domingos de Gusmão no século XIII. É uma das ordens mais influentes da Igreja Católica. |