Pedagogical Edition
52
Ormia1É o nome do sujeito do poema, uma moça. Porém, a palavra também refere-se a um tipo de mosca parasítica.
Cantar vou ao som da lira
D’Ormia gentil e pura
A infausta, triste aventura,
Muitos jovens infanções2Título antigo de nobreza, inferior ao de fidalgo e superior ao de cavaleiro
Sua destra3Mão direita. Neste caso, os rapazes querem casar com ela. ambicionaram;
Obteve-a o mais pod’roso,
Dos Lusos o mais famoso,
Que ostentava mais brasões4Os símbolos da família, reino ou tribo, “coat of arms”.
Outra hora em remotas eras,
Quando antigos Lusitanos5Portugueses
Venceram feros Romanos,
Houve entre eles uma ação,
Que os Lusos6Portugueses fortes ganharam;
Mas após—que triste caso!
Ormia e noivo ao acaso
Volvem e cativos são!
Cativos por um Romano,
Que fica também cativo,
Que muda seu gênio altivo,
Ao ver a dama gentil
De celeste formosura;
D’ela os olhos não desvia,
Encanta-o essa magia
De seu garbo7Sinônimo a graça, também pode significar elegância e graças mil!
De cada vez que a contempla
Nova perfeição descobre,
E a custo no peito nobre
Vae seu amor esconder
Quer fugir-lhe, mas é tarde!!
Detém-no fatal destino!…
Pôde a paixão mais que o tino,
Há de amá-la! Há de sofrer!
Ao vê-la tão recatada,
Tão tímida e tão modesta,
Esconder enfim protesta
Seu amor, pura afeição;
Mas um dia só a encontra
Ao luar cismando8Cismar = Contemplar de uma maneira profunda e triste triste,
Tão linda a vê, não resiste,
Pinta-lhe a sua paixão.
Já não suporta o martírio9A morte de uma pessoa por uma causa pela que ela lutou durante a vida; a morte geralmente sela os esforços dela.,
Não pôde calar no seio
Quanto sente e com receio
Lhe beija o tremulo pé.
Faz confissão da sua alma;
Mas ela o repreende altiva
E diz-lhe:— «a triste cativa
«Nem quebra honra, nem fé!
O mancebo10Jovem rapaz empalidece11Ficar sem cor na pele,
Como ferido de morte
E tratado d’esta sorte
Soltou a gemer um aí;
Era belo desmaiado,
Qual uma estatua pendida,
E a jovem enternecida
Sua fé já quase trai,
E retira-se inquieta,
A seu pesar n’ele cisma,
E já vê por outro prisma
O mundo, pois sente amor,
Sente uma triste saudade,
Não sei que doce ventura,
Mas envolta n’amargura,
Que no peito gera a dor!…
Volve triste a suspirando
O Romano junto a Ormia
Que findar não deixa um dia
Sem a ver, sem lhe falar;
Será ele amado agora?
Seu amor seria aceito?
Escutar-lhe-ia do peito
Esses ais que solta no ar?
Ama Ormia e vacilante,
Tem o remorso no seio,
Que lhe acusa o crime feio
D’uma ingratidão tão vil12Do mal, nojento.
E leva dias inteiros
Na solidão, no deserto:
Mas o esposo vê de perto
Aquele cismar febril.
E descobrir ele busca
D’essa tristeza o motivo
E vae perguntar-lhe altivo
A origem da sua dor:
53
A esposa cai de joelhos,
Toda chorosa e tremente,
Inda que está inocente,
Sem ter crime n’esse amor.
E nada oculta ao consorte
Que ideia terrível plano!
Diz-lhe que a sós o Romano,
N’um deserto pavilhão
Faça entrar lá n’alta noite
Que leve um punhal no seio
E que ao vê-lo em doce enleio
Lh’o crava no coração!
Que a sua felicidade
Só lhe prova por esta arte;
Eis que ela convulsa parte
Armada com o punhal;
Vai alta a noite e medonha,
Semeando a tempestade
A soturna claridade
Dos raios entre o pinhal.
E ela tremula caminha,
Como quem vai para a morte,
Como quem sem a guia e norte,
Vai a um abismo parar!
Soa enfim já meia noite
Ouviu-a a triste a tremia,
Frio suor a cobria,
Sente os membros fraquear.
Meia noite, hora aprazada,
Para a fatal entrevista,
Ele a espera e ela o avista
Ao clarão d’etérea luz.
—«Eis-me aqui mulher formosa
«Que hei de amar na vida e morte!
«Santo amor, que n’um transporte
«Só para ti me conduz!…
«Vinte anos contava, Ormia,
«Sem que tivesse inda amado,
«Oh! como era afortunado,
«Se te não visse, mulher!…
«Em vão lutei longo tempo,
«Para ver se te esquecia…
«Mas nunca! Nunca um só dia!
«Hora, ou instante se quer!…
«De mim já te apiedaste,
«Anjo que vens dar-me a vida!…
«Dize, uma vez só, querida,
«Se sentes amor por mim!…
«Se não dizes; então—morre,
«Morre—dize que eu contente
«Ao lado teu docemente
«Quero ter meu curto fim!…
— «Aí, como ele me quer tanto!
«E eu venho trazer-lhe a morte!…
«Que estrela a minha! Que sorte!…
«Ah! Que destino infernal!
«Que mal me fez em amar-me!
«Para vir aqui feri-lo!
«Vir traiçoeira iludi-lo,
«Qual o seu gênio do mal!
—«D’amor uma frase Ormia,
«Balbuciem os teus lábios
«Que um de teus discursos sábios
«Seja a estrela do meu céu,
«Que a estrada da minha vida
«Encha de soes multicores,
«O Santelmo dos amores
«Que brilha n’este escarcéu.
—«Por te amar tive remorsos!
«Prezo o dever, a virtude,
«Sufocar n’esta alma pude
«A minha ardente paixão;
«Mas acusou-me a consciência,
«Notou-me o esposo a tristeza,
«Ordenando com fereza
«Do meu peito a confissão!
«Após deu-me a penitência,
«Aqui vim por seu mandado,
«Ó quando ele me é pesado!
«Vês este ferro fatal!…
«Era pra vida tirar-te!
«Foge! Foge que eu te salvo
«E meu peito será o alvo
«Onde acerte este punhal!…
E logo o crava no seio,
Caindo no solo exangue
E a jorros lhe mana o sangue
Do ferido coração
54
Tão linda, na flor dos anos,
Assim morre a malfadada
Que só d’esta arte apagada
Pôde ver sua paixão!
E o Romano em brados foge,
Por montes, desatinado,
Chama Ormia o desgraçado,
Não pôde a dor suportar!
Perde a razão, vai sem tino
Despenhar-se d’um rochedo,
Cai n’um abismo e quedo
Não fica aí! Rola ao mar!
Footnotes
| ↑1 | É o nome do sujeito do poema, uma moça. Porém, a palavra também refere-se a um tipo de mosca parasítica. |
|---|---|
| ↑2 | Título antigo de nobreza, inferior ao de fidalgo e superior ao de cavaleiro |
| ↑3 | Mão direita. Neste caso, os rapazes querem casar com ela. |
| ↑4 | Os símbolos da família, reino ou tribo, “coat of arms” |
| ↑5 | Portugueses |
| ↑6 | Portugueses |
| ↑7 | Sinônimo a graça, também pode significar elegância |
| ↑8 | Cismar = Contemplar de uma maneira profunda e triste |
| ↑9 | A morte de uma pessoa por uma causa pela que ela lutou durante a vida; a morte geralmente sela os esforços dela. |
| ↑10 | Jovem rapaz |
| ↑11 | Ficar sem cor na pele |
| ↑12 | Do mal, nojento |
Diplomatic Transcription
52
Ormia
Cantar vou ao som da lyra
D’Ormia gentil e pura
A infausta, triste aventura,
Muitos jovens infanções
Sua dextra ambicionaram;
Obteve-a o mais pod’roso,
Dos Lusos o mais famoso,
Que ostentava mais brazões.
Outr’ora em remotas eras,
Quando antigos Lusitanos
Venceram feros Romanos,
Houve entre elles uma acção,
Que os Lusos fortes ganharam;
Mas após—que triste caso!
Ormia e noivo ao acaso
Volvem e captivos são!
Captivos por um Romano,
Que fica tambem captivo,
Que muda seu genio altivo,
Ao vêr a dama gentil
De celeste formosura;
D’ella os olhos não desvía,
Encanta-o essa magia
De seu garbo e graças mil!
De cada vez que a contempla
Nova perfeição descobre,
E a custo no peito nobre
Vae seu amor esconder
Quer fugir-lhe, mas é tarde!!
Detem-n’o fatal destino!…
Póde a paixão mais que o tino,
Hade amal-a! Hade soffrer!
Ao vel-a tão recatada,
Tão timida e tão modesta,
Esconder em fim protesta
Seu amor, pura affeição;
Mas um dia só a encontra
Ao luar scismando triste,
Tão linda a vê, não resiste,
Pinta-lhe a sua paixão.
Já não supporta o martyrio,
Não póde callar no seio
Quanto sente e com receio
Lhe beija o tremulo pé.
Faz confissão da sua alma;
Mas ella o reprehende altiva
E diz-lhe:— «a triste captiva
«Nem quebra honra, nem fé!
O mancebo empallidece,
Como ferido de morte
E tratado d’esta sorte
Soltou a gemer um ai;
Era bello desmaiado,
Qual uma estatua pendida,
E a joven enternecida
Sua fé já quasi tráe,
E retira-se inquieta,
A seu pesar n’elle scisma,
E já vê por outro prisma
O mundo, pois sente amor,
Sente uma triste saudade,
Não sei que doce ventura,
Mas envolta n’amargura,
Que no peito gera a dor!…
Volve triste a suspirando
O Romano junto a Ormia
Que findar não deixa um dia
Sem a vêr, sem lhe fallar;
Será elle amado agora?
Seu amor seria acceito?
Escutar-lhe-hia do peito
Esses ais que solta no ar?
Ama Ormia e vacillante,
Tem o remorso no seio,
Que lhe accusa o crime feio
D’uma ingratidão tão vil.
E leva dias inteiros
Na solidão, no deserto:
Mas o esposo vê de perto
Aquelle scismar febril.
E descobrir elle busca
D’essa tristeza o motivo
E vae perguntar-lhe altivo
A origem da sua dor:
53
A esposa cáe de joelhos,
Toda chorosa e tremente,
Inda que está innocente,
Sem ter crime n’esse amor.
E nada occulta ao consorte
Que ideia terrivel plano!
Diz-lhe que a sós o Romano,
N’um deserto pavilhão
Faça entrar lá n’alta noute
Que leve um punhal no seio
E que ao vel-o em doce enleio
Lh’o crava no coração!
Que a sua felicidade
Só lhe prova por est’arte;
Eis que ella convulsa parte
Armada com o punhal;
Váe alta a noite e medonha,
Semeando a tempestade
A soturna claridade
Dos raios entre o pinhal.
E ella tremula caminha,
Como quem váe para a morte,
Como quem sem a guia e norte,
Váe a um abysmo parar!
Soa em fim já meia noute
Ouviu-a a triste a tremia,
Frio suor a cobria,
Sente os membros fraquear.
Meia noite, hora aprazada,
Para a fatal entrevista,
Elle a espera e ella o avista
Ao clarão d’ethêrea luz.
—«Eis-me aqui mulher formosa
«Que heide amar na vida e morte!
«Santo amor, que n’um transporte
«Só para ti me conduz!..
«Vinte annos contava, Ormia,
«Sem que tivesse inda amado,
«Oh! como era afortunado,
«Se te não visse, mulher!..
«Em vão luctei longo tempo,
«Para ver se te esquecia…
«Mas nunca! Nunca um só dia!
«Hora, ou instante se quer!..
«De mim já te apiedaste,
«Anjo que vens dar-me a vida!..
«Dize, uma vez só, querida,
«Se sentes amor por mim!..
«Se não dizes; então—morre,
«Morre—dize que eu contente
«Ao lado teu docemente
«Quero ter meu curto fim!..
— «Ai, como elle me quer tanto!
«E eu venho trazer-lhe a morte!..
«Que estrella a minha! Que sorte!..
«Ah! Que destino infernal!
«Que mal me fez em amar-me!
«Para vir aqui feril-o!
«Vir traiçoeira illudil-o,
«Qual o seu genio do mal!
—«D’amor uma phrase Ormia,
«Balbuciem os teus labios
«Que um de teus discursos sabios
«Seja a estrella do meu ceu,
«Que a estrada da minha vida
«Encha de soes multicores,
«O Santelmo dos amores
«Que brilha n’este escarceu.
—«Por te amar tive remorsos!
«Prezo o dever, a virtude,
«Suffocar n’est’alma pude
«A minha ardente paixão;
«Mas accusou-me a consciencia,
«Notou-me o esposo a tristeza,
«Ordenando com fereza
«Do meu peito a confissão!
«Após deu me a penitencia,
«Aqui vém por seu mandado,
«O’ quando elle me é pesado!
«Vês este ferro fatal!..
«Era p’ra vida tirar-te!
«Foge! Foge que eu te salvo
«E meu peito será o alvo
«Onde acerte este punhal!..
E logo o crava no seio,
Cahindo no solo exangue
E a jorros lhe mana o sangue
Do ferido coração
54
Tão linda, na flor dos annos,
Assim morre a malfadada
Que só d’est’arte apagada
Póde ver sua paixão!
E o Romano em brados foge,
Por montes, desatinado,
Chama Ormia o desgraçado,
Não póde a dor supportar!
Perde a razão, váe sem tino
Despenhar-se d’um rochedo,
Cáe n’um abysmo e quedo
Não fica ahi ! Rola ao mar!