Adeus

Pedagogical Edition

Edited by Caroline Cundick

ADEUS

Ao meu adorado Pai

 

Tanto se sente na morte,

Quanto na ausência se sente,

Se a morte é ausência eterna.

A ausência é morte aparente.

Julia Castilho.

 

Adeus dias que breves passastes,

Semeados de paz e ventura,

E tão cheios de meiga ternura

Que no céu julgava viver!

 

As caricias d’um pai eu gozava,

Seu amor minha dita fazia

A tal ponto, que até me esquecia

Longa ausência que eu tinha a sofrer!

 

Mas em breve esse dia fatal,

Repassado de triste aflição,

Apareceu, e no meu coração,

Da saudade os espinhos cravou!

E tão fundos que o sangue goteja,

E em prantos de fel convertido,

Fez trocar o prazer n’um gemido,

A ventura em sofrer transmudou…

 

E depois esta ausência tão longa,

N’um escuro sodaria envolvida,

Deita a palma de mártir á vida;

Faz os dias em séculos trocar!

Qual fantasma de negro me surge

N’essas noites que lentas se arrastam

E nos dias tão tristes que passam

Sem que eu possa o meu pai abraçar!

 

Há de o sopro tão triste do outono

Congelar-se nos montes d’além

Há de vir o inverno também

Com seu cetro de ferro assentar-se

Sobre as ruinas que o outono deixou

Há de o vento bramir furioso;

Mas depois d’este tempo horroroso,

Tornará a natura a animar-se.

 

Findará o outono, o inverno;

Há de a quadra florente findar,

Sem que o peito me venha animar

Um afago do pai adorado!

Hão de em flor os espinhos mudar-se,

Há de tudo contente sorrir

Sem que eu possa no leito sentir,

Meu sofrer n’um sorriso trocado.

 

Estes bosques tão nus, que mal vestem

Pobres folhas perdidas da cor,

Tornarão a ter viço, e verdor,

Sem que tu, ó meu pai extremoso

Ao lar pátrio de novo regresses!…

E eu hei de esta ausência sofrer?

Há de o pranto amargoso correr

Sem que chegue esse tempo ditoso?

 

Mas no fim de tão longo martírio

Refulgente reluz uma esperança;

Como surge também a bonança

Terminando o fragor da procela,

Como as ondas barrentas se acalmam

Após longo, fermente agitar,

Tal meu peito se deixa afagar

Pela esperança risonha e tão bela.

 

Ante a luz que essa esperança difunde,

Ante esse astro de mago condão;

Ainda há pranto, martírio, aflição;

Ainda há lento viver de amargura…

Mas depois de passada essa nuvem,

Há de a esperança brilhante aparecer;

Já sem véu que lhe possa envolver,

Os seus raios de imensa ventura.

 

Eia pois, ó meu peito, coragem,

Não te deixes assim sucumbir,

Cessa ó lira, também de carpir

Meu sofrer pela ausência causado…

Cala as dores que o meu peito torturam.

Vê se podes meu pranto ocultar,

Pra podermos melhor ofertar

Este adeus ao meu pai adorado.

 

Veiga—novembro.

Diplomatic Transcription

Transcribed by Caroline Cundick

ADEUS

Ao meu adorado Pai

 

Tanto se sente na morte,

Quanto na ausencia se sente,

Se a morte é auzencia eterna.

A auzencia é morte apparente.

Julia Castilho.

 

Adeus dias que breves passasteis,

Semeados de paz e ventura,

E tão cheios de meiga ternura

Que no ceu julgava viver!

 

As caricias d’um pai eu gosava,

Seu amor minha dita fazia

A tal ponto, que até me esquecia

Longa ausencia que eu tinha a soffrer!..

 

Mas em breve esse dia fatal,

Repassado de triste afflicção,

Appar’ceu, e no meu coração,

Da saudade os espinhos cravou!

E tão fundos que o sangue gotteja,

E em prantos de fél convertido,

Fez trocar o prazer n’um gemido,

A ventura em soffrer transmudou…

 

E depois esta ausencia tão longa,

N’um escuro sodario envolvida,

Deita a palma de martyr á vida;

Faz os dias em seculos trocar!

Qual phantasma de negro me surge

N’essas noites que lentas se arrastam

E nos dias tão tristes que passam

Sem que eu possa o meu pai abraçar!

 

Hade o sôpro tão triste do outomno

Congelar-se nos montes d’alem

Hade vier o inverno tambem

Com seu sceptro de ferro assentar-se

Sobre as ruinas que o outomno deixou

Hade o vento bramir furioso;

Mas depois d’este tempo horroroso,

Tornará a natura a animar-se.

 

Findará o outomno, o inverno;

Hade a quadra florente findar,

Sem que o peito me venha animar

Um affago do pai adorado!

Hão de em flôr os espinhos mudar-se,

Hade tudo contente sorrir

Sem que eu possa no leito sentir,

Meu soffrer n’um sorriso trocado.

 

Estes bosques tão nús, que mal vestem

Pobres folhas perdidas da côr,

Tornarão a ter viço, e verdôr,

Sem que tu, ó meu pai extremoso

Ao lár patrio de novo regresses!…

E eu heide esta ausencia soffrer?

Hade o pranto amargoso correr

Sem que chegue esse tempo ditoso?

 

Mas no fim de tão longo martyrio

Refulgente reluz uma esp’rança;

Como surge também a bonança

Terminando o fragôr da procella,

Como as ondas barrentas se acalmam

Apoz longo, fermente agitar,

Tal meu peito se deixa affagar

Pela esp’rança risonha e tão bella.

 

Ante a luz que essa esp’rança diffunde,

Ante esse astro de mago condão;

Inda ha pranto, martyrio, afflicção;

Inda ha lento viver de amargura…

Mas depois de passada essa nuvem,

Hade a esp’rança brilhante apparecer ;

Já sem veu que lhe possa envolver,

Os seus raios de immensa ventura.

 

Eia pois, ó meu peito, coragem,

Não te deixes assum succimbir,

Cessa ó lyra, tambem de carpir

Meu soffrer pela ausencia cauzado…

Cala as dores que  o meu peito torturam.

Vê se podes meu pranto occultar,

P’ra podermos melhor offertar

Este adeus ao meu pai adorado.

 

Veiga—novembro.