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Discurso II – A Andorinha à Vigaria da Casa

Edited by T. Matthew Ginter and Samuel Snell

Transcribed by T. Matthew Ginter and Samuel Snell

Capítulo

Em a mesma manhã e em os mesmos claustros saía da sua cela a segunda Prelada1Superiora de convento, abadessa. daquele mosteiro, quando o enfadonho canto das andorinhas2Um tipo de ave (A Swallow). saudava ao sol: “Calai,” dizia a religiosa, “calai andorinhas, que estrugis com esse desagradável canto.” Aqui respondeu uma: “Mandai calar as freiras e deixa cantar as aves; tendes por vossa conta o silêncio e qualquer palavra em a noite vos deve estrugir mais, que quantas andorinhas ha em a manhã: a palavra, que ouvirdes em a hora proibida, não só vós há de entrar pelos ouvidos, mas vós há de ferir por eles; até as aves guardam respeito á noite para emudeceram; guardem-no ao silêncio para não falarem; em a hora de calar está a ave muda; como parecerá em esta hora a religiosa palreira?3Alguém que fala demais Em a noite até a feira sofre o bramido; sofra a racional a voz; a que quiser falar a toda a hora, fale com suas irmãs nas dispensadas e fale com Deus nas proibidas; pergunte-lhe com a alma santa, onde passa a sesta e pergunte-lhe também, onde passa a noite e ali em a soledade do seu silêncio lhe falará ao ouvido. Quis Deus vir ao mundo a resgatar o gênero humano e como Senhor de todas as horas podia eleger a que quisesse para esta maior fineza de seu amor; não escolheu a da madrugada, sendo a mais alegre; não escolheu a do meio dia, sendo a mais perfeita; não escolheu a da tarde, sendo a mais frequentada; mas escolheu a da meia noite, por ser a mais quieta. Tanto ama Deus o silêncio, que preferi-o a hora do silêncio a todas as outras e nem quando vinha a ostentar finezas, buscou bullicics: Dum medium silentium tenerent omnia4O início do Introit para o 2º domingo após o Natal; traduzido livremente: “Enquanto todas as coisas estavam em silêncio quieto.”. De boa razão as religiosas em nenhum tempo deverão falar mais que o preciso e não cuideis, que as apertou muito, porque ainda assim lhes não deixo pouco: falar em hora de recreação é preciso, porque já para isso está dedicada e é um desafogo em que convalesce o ânimo dos apertos da mortificação para tornar a ela vigoroso: é preciso falar com as enfermas, ou já para consolá-las, ou já para diverti-las: é preciso falar em as ocupações do ofício próprio, porque é obrigação o administrá-lo: é preciso o falar ou com a parenta, ou com a amiga, que me busca, porque o ser religiosa não me desobriga de ser política e até aos do ermo5o deserto se estendeu em muitas ocasiões esta urbanidade; mas advirto-vos a todas que em a recreação a vossa história há de ser espiritual, a vossa graça há de ser sisuda6sério; as doentes haveis divertir, mas não relaxar; em o administrar os ofícios não mandem com estrondo, sirva com modéstia: com as seculares falem como religiosas, deem-lhe a prática de Deus e não lhe tomem a do mundo e sempre caridade com o próximo: com as doentes não murmurem das sãs; com as que trabalham não murmurem das que descansam; com as de fora não murmurem das de casa e em a recreação não digam mal de nada. Vede agora, senhora, se havendo tanto em que falar no preciso, tem desculpa a religiosa em falar o escusado e daí passar ao proibido. Uma de profissão Carmelita descalça, sendo mui nímia em os escrúpulos, doença do seu sexo, ao depois de cumprir com as mais em o coro a obrigação do ofício divino, o tornava a rezar em a cela na hora do silêncio e por satisfazer melhor com o seu escrúpulo, ou com a sua ignorância o rezava alto e lhe aconteceu sentir em si aquela vivente e asquerosa7Que causa nojo. praga, que Santa Teresa deixou para despertador dos defeitos de suas filhas. Como não conhecia nenhum daqueles defeitos mais notáveis, a que corresponde aquele castigo, foi-se ao seu confessor com esta aflição a dar-lhe conta da novidade: o Padre, que a venerava perfeita, porque o era, a examinou muito miudamente e vindo a contar-lhe o modo, com que rezava o ofício divino, entendeu ser este o desejo, de que a Santa a avisava; mandou-lhe que não rezasse o ofício mais que com a comunidade, repreendendo-a de que estando em silêncio, se atrevesse a dizê-lo em tom, que fosse ouvida: obedeceu a boa religiosa e logo se achou livre do vivente castigo que a avisava. Em hora de silêncio, em tempo de quietação nem por boca de David se deve falar alto, nem as palavras de Deus se hão de pronunciar com estrondo e a ser de outra sorte, até o que o escrúpulo busca para satisfação, se converte em culpa.”

“Em certa congregação de religiosos perfeitos chegou, como é estilo, o Zelador8Quem faz a fiscalização ou a vigilância de um serviço ou atividade. a denunciar ao prelado as faltas, em que os religiosos tinham caído em aquele dia; e parecendo-lhe que lhe não ficava mais que dizer, se despedia; aqui chegou a ele um dos que assistia e lhe disse: ‘Adverti que vos falta denunciar o como fulano falou na hora do silêncio.’ Respondeu o Zelador: ‘Foi uma palavra só.’ O Prelado, que percebeu tudo, acudiu: ‘E pois ainda havia de ser mais que uma palavra?’ E logo ali lhe deu a penitência; assim faz quem fia delgado. Senhora, não fiéis em estopa, se podeis em Holanda; com tudo não hei de dizer-vos que uma palavra quebranta a lei, porque assim como hum bocado não quebra o jejum, assim uma palavra não quebranta o silêncio: este caso é de perfeição, não de rigor. Fazei, senhora, guardar o silêncio, porque aí assiste Deus, onde o há. A Alma santa pedia a seu Esposo um zéfiro brando para regar as flores do seu horto; não lhe pedia o vento, que faz ruído; não lhe pedia a água, que faz estrondo; não lhe pedia o sol, que faz publicidade; nada disto lhe pedia para criar as suas flores, para fazer crescer as suas virtudes; mas só pedia um zéfiro brando, uma respiração mansa, uma viração muda, porque tudo isto indica um silêncio quieto e onde está o silêncio, aí está Deus e onde está Deus, aí crescem as virtudes. Tudo isto, senhora, vós hei trazido para pordes muito cuidado em fazerdes guardar esta observância. Fazei-vos obedecer, que sois Prelada; a primeira se há de respeitar como a deusa, a segunda como a primeira e quando as virdes convosco menos atentas, menos rendidas, dizei-lhe com império o que Cristo ao discípulo Filipe: ‘Quem me vê a mim, vê a meu pai’: Irmãs quem me vê a mim, vê a minha maior, a mesma sou para o respeito, a mesma para a veneração.”

“Com as serventes do mosteiro, pois estão no vosso domínio, tende muita conta; um mosteiro é uma república pequena; em esta se o povo não é bem regido, tudo vai desordenado; trazei-as humilhadas, pois são servas; se as castigardes, seja com brandura; se as favorecerdes, seja com moderação, porque aqui o desvanecimento as não faça altivas e lá a demasia as não deixe irritadas; fazei muito porque nunca passem da sua esfera, que nela entenderá nasceram para servir: antes que por mal, as leveis por bem, que o rigor faz servos inimigos e o agrado escravos voluntários; sede para todas e todas serão para vós; louvai muito as que forem melhores seguindo a opinião do adagio em a condição da virtude; mandai-as servir, mas não adorar, lembrando-vos que as religiosas farão muito mal o papel de ídolos; deixa esse para os seculares, que se fazem adorar dos criados como deuses; a cujo propósito vos contarei um apólogo, que não desmerece por fábula, o que merece por exemplo.”

“Em certa corte da Ásia se convidarão os grandes e poderosos para fazerem entre todos um banquete: foram as prevenções tão soadas, que até ao Céu chegou o seu estrondo: teve Júpiter9Referencia ao pai dos deuses—o deus Romano Júpiter; Zeus sendo seu personagem grego equivalente. o deus dos deuses curiosidade de achar-se neste convite, onde só faltaria o seu néctar: cortou de uma nuvem uma capa e baixou de emboço; nesta forma entrou, quando já as mesas estavam postas e os convidados a elas: disse ser estrangeiro e pediu licença para assistir em aquela solenidade: eles mui pagos da sua pessoa lhe deram entre si assento: em o melhor do banquete perguntou Júpiter aos circunstantes: ‘E para quem são as abundantes sobras que aqui ficam?’ ‘Para os criados,’ responderam eles: ‘E estes pratos mais mimosos, que da mesa mandais?’ ‘Para nossas mulheres,’ tornaram os convidados: ‘E os que reservais?’ ‘Para os amigos ausentes,’ responderão os grandes: ‘E este ajoelhar, estas prostrações, estas vênias, estas adorações, que aqui se fazem, para quem são?’ ‘Para nós,’ tornarão os convidados. Aqui Júpiter dando uma pancada na mesa, que fez estremecer a terra e aturdir os homens, rasgando o emboço, disse: ‘E que deixais para mim?’ Os homens, que em a ação e em a luz conhecerão a Júpiter, prostrados a seus pés não sabiam que dizer-lhe; ele com irado semblante lhes proferiu estas palavras: ‘Se não quereis contra vós raio de Jove10Um nome sobre qual Júpiter era chamado, as vezes., deixai os banquetes para os homens e as adorações para os deuses.’ Aqui se fez desaparecido. Agora ao mesmo propósito vos contarei um sucesso, que não é apólogo.”

“Em Espanha um poderoso admitiu em sua casa um criado pouco prático nos estilos dos grandes, por se haver criado em uma aldeia; sucedeu na mesma manhã, em que entrou, levá-lo o senhor com outros a acompanhá-lo a uma Igreja, que estava fora da Cidade, onde se fazia festa, a que ele queria assistir: era a festa de tarde e o fidalgo11O Nobre. antes de chegar ao lugar, quis jantar em o caminho, para o que já ia prevenido. Notou o aldeão o estarem todos em pé e descobertos enquanto ele comeu, o ajoelhar ao dar a copa e jarro e todas as mais cerimônias reverentes; e já que chegavam ao santuário, perguntou o novo criado a seu amo com mais malícia, que singeleza: ‘Senhor, que hei de fazer quando entrar na Igreja?’ ‘Isso,’ respondeu o fidalgo indignado, ‘isso pergunta um Católico?’ ‘Pois, senhor,’ tornou o moço, ‘eu a vós descarapucei-me, ajoelhei-me, fiz tantas mesuras, que me fica para lá?’ Aqui o amo dando-lhe o riso: (gastava bom humor) ‘Fica-te o bater nos peitos.’ Este sucesso, senhora e este apólogo eram para os grandes melhor, que para as religiosas, porque me parece não há já freira, que se deixa adorar, ainda que haja religiosa, que se deixa servir; e a não ser fora de meu intento, muito pudera nesta particular dizer ao mundo; e que dissera Deus, se assim como em a fábula Júpiter se dignou de falar aos convidados, se dignara de falar aos homens?”

“Tende, senhora, muito cuidado em examinar o vosso mulherio nisto da lei de Deus, que há pessoas muito ladinas em a prática e muito ignorantes em a doutrina Cristã; elas tem obrigação de saber e vós de saber, se sabem; poderão vir do mundo rudes; vede vós em Sião, se estão filhas de Babilônia; não vos fieis em as verdes espertas, nem ainda bem inclinadas, que se lhes faltou a doutrina, poderá amar a Deus pelo bom natural e ignorar as suas coisas pela má educação; para servir, serão mulheres vivas, para a confissão mulheres brutas; poderá haver alguma, que saiba quantos pontos tem o açúcar e ignore quantos artigos tem a fé. Vigiai o seu traje, não sendo que servindo religiosas, vistam como seculares: pelos senhores não se conhecem os servos, mas pelos servos os senhores; tudo o que nelas for curiosidade, será em vós desdouro; traje de sorte, que quem as vir a elas, vós conheça a vós: o maior brasão, que tem, é o servirem em a casa de Deus; tragam a sua libré. Peço-vos muito, que as conserveis mui conformes, porque a desunião das servas não perturbe a paz das senhoras; se se vos transluzir algum dissabor, chegai-as a compor, antes que cheguem a pelejar. Se o Iris aparecera antes da tempestade, não houvera aquela universal rebelião das águas, onde a sua braveza afogou o mundo. Não se limite o vosso cuidado nesta matéria só às serventes, passe também às religiosas, que a tudo se estende a vossa autoridade; se as virdes desunidas, levai as mais perfeitas pelo escrúpulo e as mais entendidas pela razão, as mais azedas pelo carinho, as mais brandas pelo natural e desta sorte as deixareis em paz, que é grande mestra a manha. Um mosteiro sem união é como um relógio desconcertado, tudo é tempo confuso, horas perdidas, cordas quebradas: uma congregação de religiosas é um retrato do céu, se tem paz; e é um bosquejo do inferno, se a não tem; o que Deus nelas mais ama, é a união, porque sem união não há virtude, não há humildade em que se sente, não há sofrimento em que se queixa, não há caridade em quem se vinga, não há mansidão em quem grita, não há oração em quem se inquieta.

“Quando os anjos anunciaram aos pastores a vinda de Cristo ao mundo; porque não disseram, ‘Glória a Deus nas alturas e na terra aos homens,’ porque verdadeiramente a glória estava com Deus em a terra? Sabeis, senhora, o porquê? Porque estima Deus tanto a paz, que acharão os anjos, que em dizerem paz diziam glória, parecendo-lhes que ali estava a glória, onde estava a paz: E in terra pax hominibus12Uma frase da “Glória” da Missa Católica Romana; traduzido livremente: “Paz na terra para os homens.”. Aquela celestial Jerusalém deixou de chamar-se visão de glória para chamar-se visão de paz; pois esta Jerusalém não é o céu, este céu não é a glória? Sim; mas estimou Deus tanto a união, que querendo dar um título a sua casa, preferiu a paz a glória e em vez de pôr-lhe o nome de glória, pus-lhe o nome de paz. Os antigos Romanos levantaram um templo à paz; não a adoraram em Deus porque eram gentios, mas constituíram-na em deusa, porque eram sábios: a esta atribuição às suas uniões, a esta as suas vitórias e as suas felicidades; sede vós em o vosso mosteiro a deusa da paz, não para que na terra vós levantem altares, mas para que no céu vos terão coroas: uni as desconformes, reconciliai as agravadas, enlaçai as desunidas e assim ficareis uma deusa da paz por ofício e uma semelhança de Deus por caridade, porque aquele, que nos quer a si unidos, não nos quer uns dos outros separados. Tenho, senhora, apurado em este breve discurso as luzes, de que a águia me fez hoje graça; ainda que ouvis os avisos de uma ave bruta, não os desprezeis de uma hora racional e estes últimos ecos da paz fiquem em vossos ouvidos, como música branda, não para adormecer os sentidos, mas para despertar os cuidados.” Voou a andorinha e substituiu-lhe o lugar uma chamariz,13Um tipo de ave (The European Serin). que cantou assim da paz branda, suavemente.

 

Por traer la paz al mundo

el soberano señor

baja a nacer como hombre,

quando vive como Dios.

 

Por dar paz al universo,

en una noche se vio

en las escarchas del hielo

con los incendios de amor.

 

Todo uniforme le espera,

nada com seño encontró,

el agua deja el murmuro,

deja el espino la flor.

 

La fiera de su espelunca

trueca el bramido en la voz,

porque es humana la fiera,

cuando es cordero el león.

 

Los corazones conformes

ofrecen eterna unión,

y quando en mil se halla uno,

en tantos no cuentan dos.

 

Solo amor se mira armado,

y contra un niño en rigor,

mas es mucho contra un niño,

toda la fuerza de un Dios.

 

Paces, paces al mundo descubra el sol,

no haya lanza, ni espada, ni ira, no,

solo el amor traiga flechas,

porque es amor.

Diplomatic Transcription

DISCURSO II.

A ANDORINHA A’ VIGARIA

da Casa.

 

EM a mesma manhã , e em os mesmos

claustros sahia da sua cella a segunda

Prelada daquelle mosteyro , quando o en-

fadonho canto das andorinhas saudava ao

Sol : Calay , dizia a Religiosa, calay ando-

rinhas, que estrugís com esse desagradavel

canto.Aqui respondeo huma: Manday cal-

lar as Freyras, e deixay cantar as aves; ten-

des por vossa conta o silencio , e qualquer

palavra em a noyte vos deve estrugir mais,

que quantas andorinhas ha em a manhã :

a palavra, que ouvirdes em a hora prohibi-

da, naõ só vos ha de entrar pelos ouvidos,

mas vos ha de ferir por elles ; até as aves

guardaõ respeyto á noyte para emudece-

rem ; guardem-no ao silencio para naõ 

falarem; em a hora de callar está a ave

muda; como parecerá em esta hora a Reli-

[13]

giosa palreira ? Em a noyte até a fera soffre

o bramido; soffra a racional a voz ; a que 

quizer falar a toda a hora , fale com suas 

irmans nas dispensadas , e fale com Deos

nas prohibidas; perguntelhe com a alma

santa, aonde passa a sésta, e perguntelhe

tambem,aonde passa a noyte, e alli em a so-

ledade do seu silencio lhe falará ao ouvido.

Quiz Deos vir ao mundo a resgatar o ge-

nero humano , e como Senhor de todas as

horas podia eleger a que quizesse para esta

mayor fineza de seu amor ; naõ escolheo a

da madrugada,sendo a mais alegre ; naõ

escolheo a do meyo dia, sendo a mais per-

feyta;naõ escolheo a da tarde,sendo a mais

frequentada ; mas escolheo a da meya noy-

te, por ser a mais quieta. Tanto ama Deos o

silencio , que preferio a hora do silencio a

todas as outras ,e nem quando vinha a os-

tentar finezas, buscou bullicics : Dum me-

dium silentium tenerent omnia. De boa ra-

zão as Religiosas em nenhum tẽpo deviaõ

falar mais que o preciso, e naõ cuydeis, que 

as aperto muyto, porque ainda assim lhes 

naõ deyxo pouco : falar em hora de recrea-

ção  he preciso, porque já para isso está de-

[14]

dicada , e he hum desafogo,em que conva-

lece o animo dos apertos da mortificaçaõ

para tornar a ella vigoroso : he preciso fal-

lar com as enfermas, ou já para consolallas,

ou já para divertillas : he preciso falar em 

as occupaçoens do officio proprio, porque

he obrigaçaõ o administrallo : he preciso o

falar ou com a parenta, ou com a amiga, 

que me busca, porque o ser Religiosa naõ

me desobriga de ser politica, e até aos do 

ermo se extendeo em muytas occasioens

esta urbanidade; mas advirto-vos a todas 

que em a recreaçaõ a vossa historia ha de ser

espiritual, a vossa graça ha de ser sizuda ; 

ás doentes haveis divertir , mas naõ rela-

xar ; em o administrar os officios naõ man-

dem com estrondo, sirvaõ com modestia : 

com as seculares falem como Religiosas ,

demlhe a pratica de Deos,e naõ lhe tomem

a do mundo , e sempre caridade com o pro-

ximo: com as doentes naõ murmurem das

sans ; com as que trabalhaõ naõ murmurem

das que descançaõ ; com as de fóra naõ

murmurem das de casa , e em a recreaçaõ

naõ digaõ mal de nada. Vede agora, senho-

ra, se havendo tanto em que falar no pre-

ciso , tem disculpa a Religiosa em falar o

[15]

escusado , e dahi passar ao prohibido. Huma

de profissaõ Carmelita descalça, sendo muy

nimia em os escrupulos, doença do seu se-

xo , ao depois de comprir com as mais em 

o coro a obrigaçaõ do Officio divino,o tor-

nava a rezar em a cella na hora do silen-

cio , e por satisfazer melhor com o seu es-

crupulo ,ou com a sua ignorancia o rezava

alto,e lhe aconteceo sentir em si aquella vi-

vente , e asquerosa praga,que Santa Teresa

deyxou para despertador dos defeytos de

suas filhas. Como naõ conhecia nenhum

daquelles defeytos mais notaveis , a que 

corresponde aquelle castigo , foy-se ao seu 

Confessor com esta affliçaõ a darlhe conta

da novidade : o Padre, quea venerava per-

feyta , porque o era,a examinou muyto 

miudamente , e vindo a contarlhe o modo,

com que rezava o Officio divino,entendeo

ser este o deseyto,de que a Santa a avizava ;

mandoulhe que naõ rezasse o Officio mais

que com a Communidade , reprehenden-

do-a de que estando em silencio , se atre-

vesse a dizello em tom , que fosse ouvida :

obedeceo a boa Religiosa , e logo se achou

livre do vivente castigo que aavizava. Em 

hora de silencio , em tempo de quietaçaõ

[16]

nem por boca de David se deve fallar alto,

nem as palavras de Deos se haõ de pronun-

ciar com estrondo,e a ser de outra sorte,até

o que o escrupulo busca para satisfaçaõ, se

converte em culpa.

     Em certa congregaçaõ de Religiosos

perfeytos chegou , como he estylo , o Ze-

lador a denunciar ao Prelado as faltas , em

que os Religiosos tinhaõ cahido em aquel-

le dia ; e parecendolhe que lhe naõ ficava

mais que dizer, se despedia ; aqui chegou a

elle hum dos que assistiaõ, e lhe disse : Ad-

verti que vosfalta denunciar o como fula-

no falou na hora do silencio. Respondeo 

o Zelador:Foy huma palavra só.O Prelado,

que percebeo tudo , acudio : E pois ainda 

havia de ser mais que huma palavra? E lo-

go alli lhe deo a penitencia; assim faz quem 

fia delgado. Senhora , naõ fieis em estopa , 

se podeis em hollanda ; com tudo naõ hey 

de dizervos que huma palavra quebranta a 

ley , porque assim como hum bocado naõ 

quebra o jejum, assim huma palavra naõ

quebranta o silencio : este caso he de per-

feyçaõ, naõ de rigor. Fazey,senhora, guar-

dar o silencio, porque ahi assiste Deos,aon-

de o ha.A Alma santa pedia a seu Esposo 

[17]

hum zefiro brando para regar as flores do 

seu horto ; naõ lhe pedia o vento , que faz 

ruido; naõ lhe pedia a agua, que faz estron-

do ; naõ lhe pedia o sol, que faz publicida-

de ; nada disto lhe pedia para crear as suas

flores, para fazer crescer as suas virtudes ; 

mas só pedia hum zefiro brando, huma

respiraçaõ mansa,huma viraçaõ muda,por-

que tudo isto indica hum silencio quieto , 

e aonde está o silencio ,ahi está Deos, e

aonde esta Deos, ahi crescem as virtudes.

Tudo isto , senhora, vos hey trazido para 

pordes muyto cuidado em fazerdes guardar

esta observancia. Fazey-vos obedecer, que 

sois Prelada; a primeyra se ha de respeytar

como a deosa , a segunda como a primey-

ra ,e quando as virdes comvosco menos at-

tentas ,menos rendidas ,dizeylhe com im-

perio o que Christo ao discipulo Filippe : 

Quem me vê a mim , vê a meu pay : Irmãs

quem me vê a mim, vê a minha mayor , a

mesma sou para o respeyto, a mesma para a 

veneraçaõ.

     Com as serventes do mosteyro, pois es-

taõ no vosso dominio ,tende muyta conta ; 

hum mosteyro he huma republica peque-

na; em esta se o povo naõ he bem regido, 

[18]

tudo vay desordenado; trazey-as humilha-

das,pois saõ servas;se as castigardes , seja cõ 

brandura;se as favorecerdes,seja cõ mode-

raçaõ , porque aqui o desvanecimento as 

naõ faça altivas, e lá a demasia as naõ dey-

xe irritadas; fazey muyto porque nunca 

passem da sua esfera , que nella entenderáõ

nasceraõ para servir : antes que por mal ,

as leveis por bem , que o rigor faz servos 

inimigos, e o agrado escravos voluntarios ;

sede para todas, e todas seraõ para vós ;

louvay muyto as que forem melhores se-

guindo a opiniaõ do adagio em a cõdiçaõ

da virtude ; manday-as servir,mas naõ ado-

rar , lembrandovos que as Religiosas faraõ

muyto mal o papel de idolos; deixay esse 

para os seculares , que se fazem adorar dos

criados como deoses; a cujo proposito vos

contarey hum apologo, que naõ desmerece

por fabula , o que merece por exemplo.

     Em certa corte da Asia se convidaraõ os

grandes, e poderosos para fazerem entre

todos hum banquete: foraõ as prevençoens

taõ soadas , que até ao Ceo chegou o seu 

estrondo: teve Jupiter o deos dos deoses

curiosidade de acharse neste convite , aon-

de só faltaria o seu nectar : cortou de huma 

[19]

nuvem huma capa, e bayxou de embuço ;

nesta fórma entrou,quando já as mesas es-

tavaõ postas , e os convidados a ellas : disse

ser estrangeiro , e pedio licença para assis-

tir em aquella solemnidade : elles muy pa-

gos da sua pessoa lhe deraõ entre si assento:

em o melhor do banquete perguntou Jupi-

ter aos circunstantes : E para quem saõ as 

abundantes sobras que aqui ficaõ ? Para os 

criados, respondéraõ elles : E estes pratos

mais mimosos, que da mesa mandais? Pa-

ra nossas mulheres, tornáraõ os convida-

dos : E os que reservais ? Para os amigos au-

sentes, respondéraõ os grandes:E este ajoe-

lhar , estas prostraçoens , estas venias , estas

adoraçoens , que aqui se fazem ,para quem

saõ? Para nós , tornáraõ os convidados. A-

qui Jupiter dando huma pancada na mesa, 

que fez estremecer a terra, e aturdir os ho-

mens, rasgando o embuço, disse: E que dey-

xais para mim? Os homens,que em a acçaõ,

e em a luz conhecéraõ a Jupiter, prostra-

dos a seus pés naõ sabiaõ que dizerlhe; elle 

com irado semblante lhes proferio estas 

palavras: Se naõ quereis contra vós rayo

de Jove , deyxay os banquetes para os ho-

mens , e as adoraçoens para os deoses. A-

[20]

qui se fez desapparecido. Agora ao mes-

mo proposito vos contarey hum successo , 

que naõ he apologo.

     Em Hespanha hum poderoso admittio 

em sua casa hum criado pouco pratico nos 

estylos dos grandes,por se haver creado em 

huma aldea; succedeo na mesma manhã,

em que entrou, levallo o senhor com ou-

tros a acompanhallo a huma Igreja, que 

estava fóra da Cidade,aonde se fazia festa,

a que elle queria assistir : era a festa de tar-

de , e o Fidalgo antes de chegar ao lugar ,

quiz jantar em o caminho,para o que já hia 

prevenido. Notou o aldeano o estarem to-

dos em pé , e descobertos em quanto elle 

comeo , o ajoelhar ao dar a copa , e jarro ,

e todas as mais ceremonias reverentes ; e 

já que chegavaõ ao santuario ,perguntou o

novo criado a seu amo com mais malicia ,

que singeleza : Senhor , que hey de fazer

quando entrar na Igreja: Isso , respondeo o

Fidalgo indignado , isso pergunta huma Ca-

tholico ? Pois, senhor, tornou o moço, eu 

a vós descarapuceime ,ajoelheime, fiz tan-

tas mesuras , que me fica para lá? Aqui o

amo dandolhe o riso : ( gastava bom hu-

mor ) Ficate o bater nos peitos. Este suc-

[21]

cesso , senhora , e este apologo eraõ para

os grandes melhor,que para as Religiosas ,

porque me parece naõ ha já freira, que se

deyxa adorar, ainda que haja Religiosa ,

que se deyxa servir; e a naõ ser fóra de meu

intento, muyto podéra nesta particular di-

zer ao mundo ; e que dissera Deos , se assim

como em a fabula Jupiter se dignou de fa-

lar aos convidados , se dignára de falar aos

homens?

     Tende, senhora, muyto cuydado em 

examinar o vosso mulherio nisto da ley de

Deos , que ha pessoas muyto ladinas em a 

pratica , e muyto ignorantes em a doutrina

Christã ; ellas tem obrigaçaõ de saber , e

vós de saber,se sabem; poderáõ vir do mun-

do rudes ; vede vós em Siaõ,se estaõ filhas

de Babylonia;naõ vos fieis em as verdes es-

pertas , nem ainda bem inclinadas , que se 

lhes faltou adoutrina,poderáõ amar a Deos

pelo bom natural, e ignorar as suas cousas

pela má educaçaõ; para servir , seraõ mu-

lheres vivas, para a confissaõ mulheres bru-

tas ; poderá haver alguma, que saiba quan-

tos pontos tem o assucar, e ignore quantos

artigos tem a fé. Vigiay o seu traje , naõ

sendo q̃ servindo Religiosas, vistaõ como

[22]

seculares: pelos senhores naõ se conhecem

os servos , mas pelos servos os senhores ;

tudo o que nellas for curiosidade, será em 

vós desdouro ; trajem de sorte, que quem 

as vir a ellas , vos conheça a vós: o mayor 

brazaõ,que tem,he o servirem em a casa de

Deos ; tragaõ a sua libré. Peçovos muyto ,

que as conserveis muy conformes , porque

a desuniaõ das servas naõ perturbe a paz 

das senhoras; se se vos transluzir algum 

dissabor,chegay-as a compor,antes que che-

guem a pelejar. Se o Iris apparecera antes

da tempestade, naõ houvera aquella uni-

versal rebeliaõ das aguas , aonde a sua bra-

veza afogou o mundo. Naõ se limite o 

vosso cuydado nesta materia só ás serven-

tes , passe tambem ás Religiosas , que a tu-

do se extẽde a vossa autoridade;se as virdes

desunidas , levay as mais perfeytas pelo es-

crupulo ,e as mais entendidas pela razaõ ,

as mais azedas pelo carinho , as mais bran-

das pelo natural , e desta sorte as deyxareis

em paz, que he grande mestra a manha.

Hum mosteiro sem uniaõ he como hum 

relogio desconcertado , tudo he tempo

confuso , horas perdidas, cordas quebra-

das : huma congregaçaõ de Religiosas he

[23]

hum retrato do Ceo, se tem paz; e he hum

bosquejo do inferno, se a naõ tem ;o que 

Deos nellas mais ama, he a uniaõ, porque 

sem uniaõ naõ ha virtude, naõ ha humil-

dade em que se sente , naõ ha sofrimento

em que se queyxa, naõ ha caridade em 

quem se vinga ,naõ ha mansidaõ em quem 

grita , naõ ha oraçaõ em quem se inquieta.

     Quando os Anjos annunciáraõ aos pas-

tores a vinda de Christo ao mundo; porque

naõ disseraõ Gloria a Deos nas alturas, e na 

terra aos homens , porque verdadyramen-

te a gloria estava com Deos em a terra? Sa-

beis , senhora , o porque? Porque estima

Deos tanto a paz, que acháraõ os Anjos,

que em dizerem paz diziaõ gloria , pare-

cendolhes que alli estava a gloria , aonde 

estava a paz: E in terra pax hominibus. A-

quella celestial Jerusalem deyxou de cha-

marse visaõ de gloria para chamarse visaõ

de paz ; pois esta Jerusalem naõ he o Ceo,

este Ceo naõ he a gloria? Sim; mas estimou

Deos tanto a uniaõ ,que querendo dar hum

titulo á sua casa , preferio a paz á gloria, e

em vez de porlhe o nome de gloria , poz-

lhe o nome de paz. Os antigos Romanos

levantáraõ hum templo á paz; naõ a ado-

[24]

ráraõ em Deos porque eraõ gentios, mas

constituiraõ-na em deosa ,porque eraõ sa-

bios : a esta attribuiaõ as suas unioens ,a es-

ta as suas vitorias, e as suas felicidades ;se-

de vós em o vosso mosteiro a deosa da 

paz, naõ para que na terra vos levantem 

altares , mas para que no Ceo vos teçaõ co-

roas : uni as desconformes , reconciliay as

aggravadas, enlaçay as desunidas, e assim fi-

careis huma deosa da paz por officio, e 

huma semelhança de Deos por caridade ,

porque aquelle, que nos quer a si unidos ,

naõ nos quer huns dos outros separados.

Tenho , senhora , apurado em este breve

discurso as luzes , de que a aguia me fez ho-

je graça ; ainda que ouvis os avisos de huma

ave bruta ,naõ os desprezeis de huma hora

racional, e estes ultimos ecos da paz fi-

quem em vossos ouvidos , como musica

branda, naõ para adormecer os sentidos , 

mas para despertar os cuidados. Voou a an-

dorinha , e sustituiolhe o lugar huma cha-

mariz , que cantou assim da paz branda , e

suavemente.

Por traer lá paz al mundo

     El soberano señor

     Baxa a nacer como hombre,

[25]

     Quando vive como Dios.

Por dar paz al universo,

     En una noche se vió

     En las escarchas del yelo

     Con los incendios de amor.

Todo uniforme le espera ,

     Nada com seño encontró ,

     El agua dexa el murmuro ,

     Dexa el espino la flor.

La fiera de su espelunca

     Trueca el bramido en la voz,

     Porque es humana la fiera ,

     Quando es cordero el leon.

Los coraçones conformes

     Offrecen eterna union,

     Y quando em mil se halla uno,

     En tantos nó cuentan dós.

Solo amor se mira armado,

     Y contra un niño en rigor ,

     Mas es mucho contra un niño,

     Toda la fuerça de un Dios.

Pazes, pazes al mundo descubra el Sol ,

     Nó aya lança, ni espada , ni ira , nó ,

     Solo el amor trayga flechas , 

     Porque es amor.

Edition Notes

 

Works by Soror Maria do Céu

Posted

10 December 2021

Last Updated

14 June 2022

References

References
1 Superiora de convento, abadessa.
2 Um tipo de ave (A Swallow).
3 Alguém que fala demais
4 O início do Introit para o 2º domingo após o Natal; traduzido livremente: “Enquanto todas as coisas estavam em silêncio quieto.”
5 o deserto
6 sério
7 Que causa nojo.
8 Quem faz a fiscalização ou a vigilância de um serviço ou atividade.
9 Referencia ao pai dos deuses—o deus Romano Júpiter; Zeus sendo seu personagem grego equivalente.
10 Um nome sobre qual Júpiter era chamado, as vezes.
11 O Nobre.
12 Uma frase da “Glória” da Missa Católica Romana; traduzido livremente: “Paz na terra para os homens.”
13 Um tipo de ave (The European Serin).
14 Superiora do convento