Discurso III — A Chamariz A’Vigaria
Transcribed by Elliana Shillig Venâncio
Capítulo
Diplomatic Transcription
DISCURSO III.
A CHAMARIZ A’ VIGARIA
do Coro.
EM o illustrissimo dia para as aves des-
de a sua janela , achando-a ainda re-
colhida,falava assim huma chamariz á Vi-
garia do coro : Levantaivos, Senhora , que
já venho de chamar as aves ,para que lou-
vem a seu Creador,e agora vos chamo,para
que louveis a vosso Deos : naõ he bem dem
quinao os brutos aos racionaes, as aves ás
esposas ; compondevos que já as flores se
toucaraõ de perolas , os montes se vestiraõ
de ouro , e grã para esperar o Sol , e a vós
vos espera o Ceo ; quem tem amores, naõ
dorme ; se vós tivereis amor,madrugareis :
sono ,e amor naõ se daõ juntos , porque
hum sempre arde , outro nunca opéra : diz
lá o Castelhano : Quatro horas dueme el
Santo , feis el que no es tanto, siete el escu-
dero, ocho el cavallero &c. mas naõ diz
quantas dorme o amante, porque o amante
nunca dorme; na frase de Santo , dalhe
quatro horas ,mas na frase de amante naõ
lhe achou hora ,porque este a toda a hora
vela: o fono naõ só hedescredito do amor ,
mas perigo do entendimento ; entopece
nesta demasia ,que se fazem grosseiros os
sentidos : sem a lima dos sentimentos o que
mais dorme ,menos vive , pois furta á vida
quanto dá ao sono , e em quanto naõ acor-
da , he hum morto sem sepultura. Levan-
taivos a louvar a Deos que já os Anjos vos
esperaõ em o coro,e a que faltar,sendo mo-
ça,manday chamalla : naõ me digais que
pode enfadarse : de que se há de enfadar?
De a chamardes,para que louve a Deos? A cou-
sa mais santa , a cousa mais util , a cousa
mais honrosa? Antes me parece tem qu
agradecervos o cuydado na sua obrigaçaõ ;
a vossa he taõ alta, como diz o officio, que
administrais , officio divino , certo que naõ
merecia para administrallo mulher huma-
na ; se assim como há Deos, houvera deosa ,
só esta era digna de administrar o tal offi-
cio. Anday sempre purificada para taõ alto
ministerio , sempre justa , sempre clara , jà
que a natureza vos fez huma mulher, a gra-
ça vos assemelhe a huma divinidade. Adver-
ti, senhora , que na reza haveis de ter pau-
as , silencio , e attençaõ ;attençaõ a Deos,
em cuja presença estais ; silencio , porque
em quanto se falla com o Creador , naõ se
falla com as creaturas; pausa , porque os
verbos, que pronunciais ,saõ divinos, e de-
vem ser muy explicados : coros sem pausa
saõ palavras de Deos em confusaõ de vo-
zes : olhay aos Anjos cantando em o Ceo
aquelle divino motete: Santo , Santo , San-
to ; pois porque naõ dizem esttes Musicos:
Santissimo , que he o mesmo que tres ve-
zes Santo ,e he o titulo, que se dá ao mes
mo Deos sacramentado ? Sabeis porque ?
Porque nas tres vezes Santo vaõ tres pau-
sas , em Santissimo huma ; e como os Anjos
cantaõ á coros , e na presença de Deos ,
buscaõ huma letra,que seja a mais pausada;
ainda que ambas sejaõ letras divinas ,seja
Santissimo por antonomafia , e seja tres ve-
zes Santo em o coro : imitay estes Musi-
cos Angelicos , pois comvosco louvaõ ao
Senhor, que louvais. Pausa em o Officio di-
vino : em duas palavras vos direy, qual esta
attençaõ ha de ser, naõ attendendo a outra
cousa alguma , toda transformada na reza,
no canto, e em Deos, a quem se tributa can-
to , e reza : aqui com Deos se falla, e aon-
de se falla com Deos ,naõ se falla com ou-
trem. Instay muyto em que naõ haja des-
concerto : fallar com o livro em Latim , e
com as que me ficaõ ao lado em Portu-
guez, com os pensamentos em todas as lin-
guas , isso será fazer de huma hora de Deos
huma torre de Babylonia ; se recolhermos
os pensamentos,logo recolheremos as pala-
vras, e aonde aquelles naõ devem fazer
ruido em a mente , como soaraõ estas em
os ouvidos ? Adverti, senhora ,que alli hu-
ma palavra escusada he huma culpa com-
mettida : logo para que havemos misturar
peccados com perolas ? As palavras de Da-
vid saõ thesouros , deyxemolos correr sem
os embaraçar.
Huma minina de nove annos em certo
mosteyro pupilla , falecendo huma compa-
heyra sua , a via todos os dias junto a si , e
tomando animo para falarlhe , lhe disse o
como vinha ter o seu purgatorio aonde
commettera a sua culpa,e que alli satisfazia
o que alli com ella falara:fizeraõlhe suffra-
gios,desappareceo a visaõ,deyxando as Re-
ligiosas bem advertidas, pois viaõ que ain-
da que naõ tinha obrigaçaõ á reza, paga
nella a divida do respeito ,quando naõ po-
dia delinquir na da prosistaõ; e se isto pas-
sou por huma minina o que passará por hu-
ma Religiosa? O fogo que naõ perdoou á
flor innocente, como há de perdoar á arvo-
re culpada? Livrenos Deos de ajuntar le-
nha ao fogo : em todas as horas do coro se
merece , já com a prisaõ , já com a satista-
çaõ , já com o sacrificio : bom será logo que
do tempo , em que podemos fazer nossa
grangearia , naõ grangeemos o nosso pur-
gatorio ; eu creyo que na vossa Communi-
dade naõ haja huma neste particular repre-
hensivel , mas os avisos nunca se perdem ,
porque quando os naõ necessite ao presen-
te , póde necessitallos ao futuro : saybaõ
humas o de que se livraõ, e outras ao que
se arriscaõ. Ouvi hum caso, que faz ao pro-
posito do que aqui tenho falado ; mas sobre
este meu sentir ,inda que em as Commu-
nidades todas sejaõ boas, se acha huma me-
nos perfeyta ; á que virdes negligente em
acodir ao coro contareis este caso,que traz
a historia Serafica succedido em o Conven-
to de Varatojo.
Retirado a este hum Religioso chamado
Fr. André da Iniua a tratar das emportan-
cias da sua alma, depois de haver sido Mi-
nistro Geral de toda a Ordem;estava huma
noite só em a casa da livraria, aonde o ti-
nhaõ agasalhado, quando vio diante de si
a hum frade defunto, que elle muyto bem
conheceo, as nunca declarou seu nome;
disselhe este com muytas ancias,que o justo
Juiz além do fogo do purgatorio o conde-
nara a rezar o Officio divino todos os dias
no discurso de hum anno pelas faltas com-
mettidas no seguimento do coro , e que vi-
nha a pedirlhe lhe assignasse hum Religio-
so, com o qual desse satisfaçaõ ao divino
mandato; nomeoulhe logo hum de conhe-
cida virtude, e bom soffrimento, o qual as-
hindo todas as noytes do coro ,ao depois
de acabadas as Matinas, entrava na casa do
capitulo com luz , e breviario, e fazendo
final principiava o Officio, e logo começa-
va a responder o defunto pausada, e clara-
mente, continuando desta maneira até
Completas sem interpolaçaõ alguma : o
mesmo defunto ,tanto que acabou o anno,
lhe rendeo as graças pela caridade,com que
o ajudara a sahir das penas,mas naõ lhe de-
clarou quem era , nem se lhe manifestou a
seus olhos. Todas as mais culpas se satisfa-
zem em o Purgatorio com a moeda do fo-
go , mas culpas do Officio divino só com o
Officio divino se satisfazem ; porque naõ
ha castigo, que as equivalha ; haõ de pa-
garse com o Purgatorio , e haõ de pagarse
com o officio: as outras pagaõ-se huma
vez, estas pagaõ-se duas; satisfazemse com
a moeda, que naquelle lugar corre, e satis-
fazemse com o tributo, que cá faltou.
Fazeivos muyto respeytada em o vosso
Officio : vós em o coro sois huma Vice-Ab-
badessa, reprehendey com gravidade , e
ensinay com brandura , em o advertir sede
affavel, em fazervos obedecer severa ; nas
ceremonias tende muyto cuydado, naõ se-
já, que a que abayxar a cabeça ao Padre , e
ao Filho , a levante ao Espirito Santo , que
isso será fazer em Deos distinçaõ da unida-
de : fazey profundar a venia , porque naõ
vejais o que certo Religioso , que entran-
do em o coro vio arder nelle hum monti-
nho de faiscas; parecendolhe encanto no-
tavel pelo lugar, e pela hora o fogo vivo
sem cinza morta,se perguntou a si mesmo:
Que fogo he este? Ao que do mesmo incen-
dio lhe responderaõ: Somos almas dos Re-
ligiosos defuntos , que ao abayxar a cabeça ao
Gloria Patri era com taõ pouca reverencia,
que ao nomear o Espirito Santo a tinhamos
levantada, e como o Espirito Divino he
amor ,e o amor fogo , pagamos aqui con-
vertidos em fogo, o que delinquimos con-
tra o amor. Senhora , naõ aggravemos ao
Espirito Santo , porque o amor obrigado
he suave, offendido terrivel; fazei dar a
Deos o seu tributo reverente , puro, e com
seu conto, e medida; nem ceremonia , nem
syllaba, nem pronúncia de menos, nem tam-
bem de mais. A este proposito vos trarey
huma historia.
Hum Rey poderoso mandou hum mi-
nistro a cobra os seus tributos; chegou a
recolher o paõ ; e perguntando, se vinha a
conta certa , lhe disse por zombaria o tri-
butario: Falta hum graõ de trigo: Pois naõ
aceyto, responde o ministro , que no tri-
buto do Rey nem hum graõ de trigo há de
ir de menos: levandose da ironia, voltou
as costas, e foy arrecadar o tributo das
perolas; entregoulhas o depositario, e dis-
se: Estaõ muy bem contadas, e ainda levais
huma de mais: Pois deixay-a ficar , disse o
cortezaõ , que o tributo do Senhor há de
ter sua conta , e sua medida, nem há de fal-
tar, nem há de sobejar: deyxou huma, e le-
vou as outras. Passou a receber hum regalo
de aromas , cõ que hum dos magnates pre-
senteava a ElRey; deolhe a quantidade, que
lhe pareceo sufficiente para offerta de hum
taõ grande senhor, e vendo que o minis-
tro se naõ despedia, pergunto: Quereis le-
var mais? Quero, respondeo elle ; com que
lhe accrescentou a quantidade;e o homem
ainda sem despedirse, deitava o outro mais
aromas , e este sempre parado a receber
humas, e a esperar outras, até que o liberal
lhe disse: Das perolas naõ quizestes huma
de mais , e dos aromas nunca acabais de
satisfazervos? Sim, respondeo elle, porque
as perolas, e o trigo saõ tributo d’ElRey, e
o que se paga ao senhor há de ser justo com
seu pezo, e sua medida, nem há de faltar,
nem há de sobejar: as perolas eraõ divida,
os aromas saõ amor; daquellas basta, o que
basta, destes naõ sobra, nem o que sobra;
com que por mais que me deis dos aromas
significativos da vossa vontade nūca hey de
dizer basta, porque he dadiva de amante, e
essas naõ tem medida. Esta parabola falla
com o vosso coro: no graõ, e perolas se sym-
bolizaõ as palavras, as ceremonias do Offi-
cio divino, tributo do Senhor, que nem há
de ser de mais, nem de menos; nos aromas
os pensamentos, que sobem ao Ceo como
esses fumos ; os affectos, que se abrazaõ
com sua materia; estes sejaõ sem conto,
e sem medida, porque saõ sacrificio do
amor: as palavras, as ceremonias, os cantos
sejaõ por regra, porque saõ tributos da
obrigaçaõ. Muyto cuydado com o vosso
officio, pois vedes que todas as mais saõ
ministras dos officios humanos, e vós as-
ministrais o Officio divino. Callou a cha-
mariz o discurso, e levantou o canto com a
mesma letra,com que primeyro chamou á
mesma cella.
Despierta, despierta ,
Que quien ama, no es justo, que duerma.
Despierta, Ninfa, a mis vozes,
Que ya tu amante te espera,
Y no es razon, que del sueño,
Tenga zelos la fineza.
Despierta, despierta ,
Despierta, que amor te llama,
Y rezelo le paresca,
Que no há llamado em el alma,
Aun que há llamado a la puerta.
Despierta, despierta ,
Despierta, que como tardas,
Entra el amor em sospecha,
Porque no ay ojos dormidos,
Onde ay voluntad despierta.
Despierta, despierta ,
Mira que la Aurora, y el Alva,
Han seguido su carrera,
Uma a llorar tu sociego,
Outra a dezir pereza.
Despierta, despierta ,
Si para aguardar um Dios,
Que baxa de sus esferas.
Eras poco siendo amante,
Que serás siendo grossera?
Despierta, despierta ,
Uma ardiente, y outra pura,
Le espera rosa, y mosqueta,
Supuesto, que al amor duermas,
Como a los zelos nó acuerdas?
Despierta, despierta ,
Advierte, para que salgas,
Que te há de dexar mas fea
Um atomo em el amor,
Que uma mancha em la belleza.
Despierta, despierta ,
Mira, que se tardas más,
Este amante, que te espera
Te há de bolver las espaldas
Si te offereció las estrellas.
Despierta, despierta ,
Que quien ama, no es justo que duerma.
Works by Soror Maria do Céu
- Enganos do Bosque, Desenganos do Rio. I e II parte (1)
- Adágio 3 – Nestas casas que aqui vedes
- Adágio 4 – É uma negra boçal
- Adágio 5 – Sou cambraia, porém sem fio
- Adágio 6 – Na fresca aurora sou dama prezada
- Adágio 7 – Filho sou de um monstro horrível
- Adágio 8 – Sou alva mas de má cor
- Adágio 9 – Era um moço comprido, negro e feio
- Adágio 10 – Eu sou uma ilha escura
- Adágio 11 – Uma mulher que apanhou
- Adágio 12 – Levo a primazia às mais
- Adágio 13 – Sou neste mundo a mulher
- Adágio 14 – Ontem fui flor
- Adágio 15 – Nasci entre gente nobre
- Adágio 16 – Terra dura os produziu
- Adágio 18 – Ando encoberta a fugir
- Adágio 19 – Vá fora a negra e mulato
- Adágio 20 – Sirvo ligeira e forte
- Adágio 21 – Ouça senhora condessa
- Adágio 22 – Sou ouro, mas confesso
- Adágio 23 – Estou na boca da dama
- Adágio 24 – Eu e um mancebo sim
- Adágio 25 – Nasci na casa de Deus
- Adágio 27 – Em uma monção ditosa
- Adágio 28 – Hei-la vem sem se sentir
- Adágio 29 – Todo o dia em um canto estou
- Adágio 30 – Por um caminho achado
- Adágio 33 – Com um homem muito forte me abracei
- Adágio 34 [primeiro] – Fui com estudo criado
- Adágio 34 [segundo] – Cara feia, pequeninho
- Adágio 35 – Se com discurso não bronco
- Amor es fe
- Aves Ilustradas (1)
Miscellaneous Works by Soror Maria do Céu
- Amor es fe, 1741
- Las lágrimas de Roma, 1741
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13 May 2026
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13 May 2026