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Discurso III — A Chamariz A’Vigaria do Coro

by Soror Maria do Céu

Transcribed by Elliana Shillig Venâncio

Capítulo

Em o ilustríssimo dia para as aves desde a sua janela, achando-a ainda recolhida, falava assim uma chamariz á Vigaria do coro: Levantai-vos, Senhora, que já venho de chamar as aves, para que louvem a seu Criador, e agora vos chamo, para que louveis a vosso Deus: não é bem darem quinhão os brutos aos racionais, as aves ás esposas; componde-vos que já as flores se toucarão de perolas, os montes se vestirão de ouro, e grã para esperar o sol, e a vós vos espera o Céu; quem tem amores, não dorme; se vós tivéreis amor, madrugareis: sono, e amor não se dão juntos, porque um sempre arde, outro nunca opera: diz lá o Castelhano : Quatro horas duerme el Santo, seis el que no es tanto, siete el escudero, ocho el cavallero etc. mas não diz quantas dorme o amante, porque o amante nunca dorme; na frase de Santo, da lhe quatro horas, mas na frase de amante não lhe achou hora, porque este a toda a hora vela1do verbo velar: guardar ou proteger: o sono não só  é descredito do amor, mas perigo do entendimento; entorpece nesta demasia, que se fazem grosseiros os sentidos: sem a lima2 instrumento de metal usado para afiar outros materiais dos sentimentos o que mais dorme, menos vive, pois furta á vida quanto dá ao sono, e em quanto não acorda, é hum morto sem sepultura. Levantai-vos a louvar a Deus que já os anjos vos esperam em o coro, e a que faltar, sendo moça, mandai chamá-la: não me digais que pode enfadar-se: de que se há de enfadar? Para que a chamar, para que louve a Deus? A coisa mais santa, a coisa mais útil, a coisa mais honrosa? Antes me parece tem que agradecer-vos o cuidado na sua obrigação; a vossa é tão alta, como diz o ofício, que administrais, ofício divino, certo que não merecia para administrá-lo mulher humana; se assim como há Deus, houvera deusa, só esta era digna de administrar o tal ofício. Andai sempre purificada para tão alto ministério, sempre justa, sempre clara, já que a natureza vos fez uma mulher, a graça vos assemelhe a uma divindade. Adverti, senhora, que na reza haveis de ter pausa, silencio e atenção; atenção a Deus, em cuja presença estais; silencio, porque enquanto se fala com o Criador, não se fala com as criaturas; pausa, porque os verbos, que pronunciais, são divinos, e devem ser muito explicados: coros sem pausa são palavras de Deus em confusão de vozes: olhai aos anjos cantando em o Céu aquele divino motete: Santo, Santo, Santo; pois porque não dizem estes músicos: Santíssimo, que é o mesmo que três vezes Santo, e é o titulo, que se dá ao mesmo Deus sacramentado? Sabeis por quê? Porque nas três vezes Santo vão três pausas, em santíssimo uma; e como os anjos cantam á coros, e na presença de Deus, buscam uma letra, que seja a mais pausada; ainda que ambas sejam letras divinas, seja santíssimo por antonomásia, e seja três vezes Santo em o coro: imitai estes músicos angélicos, pois convosco louvam ao Senhor, que louvais. Pausa em o Ofício divino: em duas palavras vos direi, qual esta atenção há de ser, não atendendo a outra coisa alguma, toda transformada na reza, no canto, e em Deus, a quem se tributa canto, e reza: aqui com Deus se fala, e onde se fala com Deus, não se fala com outrem. Instai muito em que não haja desconcerto: falar com o livro em latim, e com as que me ficam ao lado em português, com os pensamentos em todas as línguas, isso será fazer de uma hora de Deus uma torre de Babilônia; se recolhermos os pensamentos, logo recolheremos as palavras, e onde aqueles não devem fazer ruído em a mente, como soarão estas em os ouvidos? Adverti, senhora, que ali uma palavra escusada é uma culpa cometida: logo para que havemos misturar pecados com pérolas?3Mateus 7:6 As palavras de David são tesouros, deixemo-los correr sem os embaraçar.

Uma menina de nove anos em certo mosteiro pupila, falecendo uma companheira sua, a via todos os dias junto a si, e tomando animo para falar-lhe, lhe disse o como vinha ter o seu purgatório onde cometerá a sua culpa, e que ali satisfazia o que ali com ela falara: fizeram-lhe sufrágios, desapareceu a visão, deixando as religiosas bem advertidas, pois viam que ainda que não tinha obrigação á reza, paga nela a divida do respeito, quando não podia delinquir na da procissão4uma marcha ou desfile religioso organizado, onde os fiéis caminham em conjunto de forma ordenada e solene; e se isto passou por uma menina o que passará por uma religiosa? O fogo que não perdoou á flor inocente, como há de perdoar á arvore culpada? Livre-nos Deus de ajuntar lenha ao fogo: em todas as horas do coro se merece, já com a prisão, já com a satisfação, já com o sacrifício: bom será logo que do tempo, em que podemos fazer nossa granjearia5merecer algo através de esforço, não granjeemos o nosso purgatório; eu creio que na vossa comunidade não haja uma neste particular repreensível, mas os avisos nunca se perdem, porque quando os não necessite ao presente, pôde necessita-los ao futuro: saibam umas o de que se livram, e outras ao que se arriscam. Ouvi um caso, que faz ao propósito do que aqui tenho falado; mas sobre este meu sentir, inda que em as comunidades todas sejam boas, se acha uma menos perfeita; á que virdes negligente em acudir ao coro contareis este caso, que traz a História Seráfica 6Conjunto de relatos históricos e edificantes da Ordem Franciscana, usados para instrução moral e espiritual dos seus membros. sucedido em o Convento de Varatojo7O Mosteiro do Varatojo é um antigo mosteiro franciscano localizado em Varatojo, Torres Vedras. Foi fundado por D. Afonso V de Portugal em 1470, em cumprimento de uma promessa que havia feito a Santo … Continue reading.

Retirado a este um religioso chamado Fr. André da Iniua8foi da Província dos Algarves e exerceu o cargo de Ministro Geral da Ordem Franciscana de 1547 a 1553 a tratar das importâncias da sua alma, depois de haver sido Ministro Geral de toda a Ordem; estava uma noite só em a casa da livraria, onde o tinham agasalhado, quando viu diante de si a um frade defunto, que ele muito bem conheceu, as nunca declarou seu nome; disse-lhe este com muitas anciãs, que o justo Juiz além do fogo do purgatório o condenara a rezar o ofício divino todos os dias no discurso de um ano pelas faltas cometidas no seguimento do coro, e que vinha a pedir-lhe lhe assinasse um Religioso, com o qual desse satisfação ao divino mandato; nomeou lhe logo um de conhecida virtude, e bom sofrimento, o qual saindo todas as noites do coro, ao depois de acabadas as Matinas, entrava na casa do capitulo com luz, e breviário, e fazendo final principiava o ofício, e logo começava a responder o defunto pausada, e claramente, continuando desta maneira até completas sem interpolação alguma: o mesmo defunto, tanto que acabou  o ano, lhe rende-o as graças pela caridade, com que o ajudara a sair das penas, mas não lhe declarou quem era, nem se lhe manifestou a seus olhos. Todas as mais culpas se satisfazem em o Purgatório com a moeda do fogo, mas culpas do ofício divino só com o ofício divino se satisfazem; porque não a castigo, que as equivalha; hão de pagar-se com o Purgatório, e hão de pagar-se com o ofício: as outras pagam-se uma vez, estas pagam-se duas; satisfazem-se com a moeda, que naquele lugar corre, e satisfazem-se com o tributo, que cá faltou.

Fazei-vos muito respeitada em o vosso ofício: vós em o coro sois uma Vice-Abadessa, repreendei com gravidade, e ensinai com brandura, em o advertir sede afável, em fazer-vos obedecer severa; nas cerimonias tende muito cuidado, não seja, que a que abaixar a cabeça ao Pai, e ao Filho, a levante ao Espírito Santo, que isso será fazer em Deus distinção da unidade: fazei profundar a vênia, porque não vejais o que certo religioso, que entrando em o coro vi-o arder nele um montinho de faíscas; parecendo-lhe encanto notável pelo lugar, e pela hora o fogo vivo sem cinza morta, se perguntou a si mesmo: Que fogo é este? Ao que do mesmo incêndio lhe responderão: Somos almas dos religiosos defuntos, que ao abaixar a cabeça ao Gloria Patri9A Santíssima Trinidade—Pai, Filho e Espírito Santo era com tão pouca reverencia, que ao nomear o Espírito Santo a tínhamos levantada, e como o Espírito Divino é amor, e o amor fogo, pagamos aqui convertidos em fogo, o que delinquimos contra o amor. Senhora, não agravemos ao Espírito Santo, porque o amor obrigado é suave, ofendido terrível; fazei dar a Deus o seu tributo reverente, puro, e com seu conto, e medida; nem cerimonia, nem sílaba, nem pronúncia de menos, nem também de mais. A este propósito vos trarei uma história.

Um rei poderoso mandou um ministro a cobra os seus tributos; chegou a recolher o pão; e perguntando, se vinha a contar certa, lhe disse por zombaria o tributário: Falta um grão de trigo: Pois não aceito, responde o ministro, que no tributo do rei nem um grão de trigo há de ir de menos: levando-se da ironia, voltou as costas, e foi arrecadar o tributo das pérolas; entregou-lhes o depositário, e disse: Estão muito bem contadas, e ainda levais uma de mais: Pois deixai-a ficar, disse o cortesão, que o tributo do Senhor há de ter sua conta, e sua medida, nem há de faltar, nem há de sobejar: deixou uma, e levou as outras. Passou a receber hum regalo de aromas, com que um dos magnates presenteava a ElRey; deu-lhe a quantidade, que lhe pareceu suficiente para oferta de um tão grande senhor, e vendo que o ministro se não despedia, pergunto: Quereis levar mais? Quero, respondeu ele; com que lhe acrescentou a quantidade; e o homem ainda sem despedir-se, deitava o outro mais aromas, e este sempre parado a receber umas, e a esperar outras, até que o liberal lhe disse: Das perolas não quisestes uma de mais, e dos aromas nunca acabais de satisfazer-vos? Sim, respondeu ele, porque as pérolas, e o trigo são tributo d’ElRey, e o que se paga ao senhor há de ser justo com seu peso, e sua medida, nem há de faltar, nem há de sobejar: as pérolas eram dívida, os aromas são amor; daquelas basta, o que basta, destes não sobra, nem o que sobra; com que por mais que me deis dos aromas significativos da vossa vontade nunca hei de dizer basta, porque é dadiva de amante, e essas não tem medida. Esta parábola fala com o vosso coro: no grão, e perolas se simbolizam as palavras, as cerimonias do ofício divino, tributo do Senhor, que nem há de ser de mais, nem de menos; nos aromas os pensamentos, que sobem ao Céu como esses fumos; os afetos, que se abrasão com sua matéria; estes sejam sem conto, e sem medida, porque são sacrifício do amor: as palavras, as cerimonias, os cantos sejam por regra, porque são tributos da obrigação. Muito cuidado com o vosso ofício, pois vedes que todas as mais são ministras dos ofícios humanos, e vós administrais o ofício divino. Calou a chamariz o discurso, e levantou o canto com a mesma letra, com que primeiro chamou á mesma cela.

Despierta, despierta,

Que quien ama, no es justo, que duerma.

Despierta, Ninfa, a mis voces,

Que ya tu amante te espera,

Y no es razón, que del sueño,

Tenga zelos la fineza.

Despierta, despierta,

Despierta, que amor te llama,

Y recelo le parezca,

Que no ha llamado em el alma,

Aun que ha llamado a la puerta.

Despierta, despierta,

Despierta, que como tardas,

Entra el amor em sospecha,

Porque no ay ojos dormidos,

Onde ay voluntad despierta.

Despierta, despierta,

Mira que la Aurora, y el Alva,

Han seguido su carrera,

Una a llorar tu sosiego,

Otra a decir pereza.

Despierta, despierta,

Si para aguardar un Dios,

Que baja de sus esferas.

Eras poco siendo amante,

¿Qué serás siendo grosera?

Despierta, despierta,

Una ardiente, y otra pura,

Le espera rosa, y mosqueta,

Supuesto, que al amor duermas,

¿Como a los zelos no acuerdas?

Despierta, despierta,

Advierte, para que salgas,

Que te ha de dejar más fea

Un átomo em el amor,

Que una mancha em la belleza.

Despierta, despierta,

Mira, que se tardas más,

Este amante, que te espera

Te ha de volver las espaldas

Si te ofreció las estrellas.

Despierta, despierta,

Que quien ama, no es justo que duerma.

Diplomatic Transcription

      DISCURSO III.

A CHAMARIZ A’ VIGARIA

         Do Coro.

EM o illustrissimo dia para as aves def-

de a sua janela , achando-a ainda re-

colhida,falava assim huma chamariz á Vi-

garia do coro : Levantaivos, Senhora , que

já venho de chamar as aves ,para que lou-

vem a seu Creador,e agora vos chamo,para

que louveis a vosso Deos : naõ he bem dem

quinao os brutos aos racionaes, as aves ás

esposas ; compondevos que já as flores se

toucaraõ de perolas , os montes se vestiraõ

de ouro , e grã para esperar o Sol , e a vós

vos espera o Ceo ; quem tem amores, naõ

dorme ; se vós tivereis amor,madrugareis :

sono ,e amor naõ se daõ juntos , porque

hum sempre arde , outro nunca opéra : diz

lá o Castelhano : Quatro horas dueme el

Santo , seis el que no es tanto, siete el escu-

dero, ocho el cavallero &c. mas naõ diz

 

quantas dorme o amante, porque o amante

nunca dorme; na frase de Santo , dalhe

quatro horas ,mas na frase de amante naõ

lhe achou hora ,porque este a toda a hora

vela: o sono naõ só hedescredito do amor ,

mas perigo do entendimento ; entopece

nesta demasia ,que se fazem grosseiros os

sentidos : sem a lima dos sentimentos o que

mais dorme ,menos vive , pois furta á vida

quanto dá ao sono , e em quanto naõ acor-

da , he hum morto sem sepultura. Levan-

taivos a louvar a Deos que já os Anjos vos

esperaõ em o coro,e a que faltar,sendo mo-

ça,manday chamalla : naõ me digais que

pode enfadarse : de que se há de enfadar?

De a chamardes,para que louve a Deos? A cou-

sa mais santa , a cousa mais util , a cousa

mais honrosa? Antes me parece tem que

agradecervos o cuydado na sua obrigaçaõ ;

a vossa he taõ alta, como diz o officio, que

administrais , officio divino , certo que naõ

merecia para administrallo mulher huma-

na ; se assim como há Deos, houvera deosa ,

só esta era digna de administrar o tal offi-

cio. Anday sempre purificada para taõ alto

ministerio , sempre justa , sempre clara , jà

que a natureza vos fez huma mulher, a gra-

 

ça vos assemelhe a huma divinidade. Adver-

ti, senhora , que na reza haveis de ter pau-

sa , silencio , e attençaõ ;attençaõ a Deos,

em cuja presença estais ; silencio , porque

em quanto se falla com o Creador , naõ se

falla com as creaturas; pausa , porque os

verbos, que pronunciais ,saõ divinos, e de-

vem ser muy explicados : coros sem pausa

saõ palavras de Deos em confusaõ de vo-

zes : olhay aos Anjos cantando em o Ceo

aquelle divino motete: Santo , Santo , San-

to ; pois porque naõ dizem estes Musicos:

Santissimo , que he o mesmo que tres ve-

zes Santo ,e he o titulo, que se dá ao mes

mo Deos sacramentado ? Sabeis porque ?

Porque nas tres vezes Santo vaõ tres pau-

sas , em Santissimo huma ; e como os Anjos

cantaõ á coros , e na presença de Deos ,

buscaõ huma letra,que seja a mais pausada;

ainda que ambas sejaõ letras divinas ,seja

Santissimo por antonomasia , e seja tres ve-

zes Santo em o coro : imitay estes Musi-

cos Angelicos , pois comvosco louvaõ ao

Senhor, que louvais. Pausa em o Officio di-

vino : em duas palavras vos direy, qual esta

attençaõ ha de ser, naõ attendendo a outra

cousa alguma , toda transformada na reza,

no canto, e em Deos, a quem se tributa can-

to , e reza : aqui com Deos se falla, e aon-

de se falla com Deos ,naõ se falla com ou-

trem. Instay muyto em que naõ haja des-

concerto : fallar com o livro em Latim , e

com as que me ficaõ ao lado em Portu-

guez, com os pensamentos em todas as lin-

guas , isso será fazer de huma hora de Deos

huma torre de Babylonia ; se recolhermos

os pensamentos,logo recolheremos as pala-

vras, e aonde aquelles naõ devem fazer

ruido em a mente , como soaraõ estas em

os ouvidos ? Adverti, senhora ,que alli hu-

ma palavra escusada he huma culpa com-

mettida : logo para que havemos misturar

peccados com perolas ? As palavras de Da-

vid saõ thesouros , deyxemolos correr sem

os embaraçar.

Huma minina de nove annos em certo

mosteyro pupilla , falecendo huma compa-

heyra sua , a via todos os dias junto a si , e

tomando animo para falarlhe , lhe disse o

como vinha ter o seu purgatorio aonde

commettera a sua culpa,e que alli satisfazia

o que alli com ella falara:fizeraõlhe suffra-

gios,desappareceo a visaõ,deyxando as Re-

ligiosas bem advertidas, pois viaõ que ain-

da que naõ tinha obrigaçaõ á reza, paga

nella a divida do respeito ,quando naõ po-

dia delinquir na da prosistaõ; e se isto pas-

sou por huma minina o que passará por hu-

ma Religiosa? O fogo que naõ perdoou á

flor innocente, como há de perdoar á arvo-

re culpada? Livrenos Deos de ajuntar le-

nha ao fogo : em todas as horas do coro se

merece , já com a prisaõ , já com a satista-

çaõ , já com o sacrificio : bom será logo que

do tempo , em que podemos fazer nossa

grangearia , naõ grangeemos o nosso pur-

gatorio ; eu creyo que na vossa Communi-

dade naõ haja huma neste particular repre-

hensivel , mas os avisos nunca se perdem ,

porque quando os naõ necessite ao presen-

te , póde necessitallos ao futuro : saybaõ

humas o de que se livraõ, e outras ao que

se arriscaõ. Ouvi hum caso, que faz ao pro-

posito do que aqui tenho falado ; mas sobre

este meu sentir ,inda que em as Commu-

nidades todas sejaõ boas, se acha huma me-

nos perfeyta ; á que virdes negligente em

acodir ao coro contareis este caso,que traz

a historia Serafica succedido em o Conven-

to de Varatojo.

Retirado a este hum Religioso chamado

Fr. André da Iniua a tratar das emportan-

cias da sua alma, depois de haver sido Mi-

nistro Geral de toda a Ordem;estava huma

noite só em a casa da livraria, aonde o ti-

nhaõ agasalhado, quando vio diante de si

a hum frade defunto, que elle muyto bem

conheceo, as nunca declarou seu nome;

disselhe este com muytas ancias,que o justo

Juiz além do fogo do purgatorio o conde-

nara a rezar o Officio divino todos os dias

no discurso de hum anno pelas faltas com-

mettidas no seguimento do coro , e que vi-

nha a pedirlhe lhe assignasse hum Religio-

so, com o qual desse satisfaçaõ ao divino

mandato; nomeoulhe logo hum de conhe-

cida virtude, e bom soffrimento, o qual sa-

hindo todas as noytes do coro ,ao depois

de acabadas as Matinas, entrava na casa do

capitulo com luz , e breviario, e fazendo

final principiava o Officio, e logo começa-

va a responder o defunto pausada, e clara-

mente, continuando desta maneira até

Completas sem interpolaçaõ alguma : o

mesmo defunto ,tanto que acabou  o anno,

lhe rendeo as graças pela caridade,com que

o ajudara a sahir das penas,mas naõ lhe de-

clarou quem era , nem se lhe manifestou a

seus olhos. Todas as mais culpas se satisfa-

zem em o Purgatorio com a moeda do fo-

go , mas culpas do Officio divino só com o

Officio divino se satisfazem ; porque naõ

ha castigo, que as equivalha ; haõ de pa-

garse com o Purgatorio , e haõ de pagarse

com o officio: as outras pagaõ-se huma

vez, estas pagaõ-se duas; satisfazemse com

a moeda, que naquelle lugar corre, e satis-

fazemse com o tributo, que cá faltou.

Fazeivos muyto respeytada em o vosso

Officio : vós em o coro sois huma Vice-Ab-

badessa, reprehendey com gravidade , e

ensinay com brandura , em o advertir sede

affavel, em fazervos obedecer severa ; nas

ceremonias tende muyto cuydado, naõ se-

já, que a que abayxar a cabeça ao Padre , e

ao Filho , a levante ao Espirito Santo , que

isso será fazer em Deos distinçaõ da unida-

de : fazey profundar a venia , porque naõ

vejais o que certo Religioso , que entran-

do em o coro vio arder nelle hum monti-

nho de faiscas; parecendolhe encanto no-

tavel pelo lugar, e pela hora o fogo vivo

sem cinza morta,se perguntou a si mesmo:

Que fogo he este? Ao que do mesmo incen-

dio lhe responderaõ: Somos almas dos Re-

ligiosos defuntos , que ao abayxar a cabeça ao

Gloria Patri era com taõ pouca reverencia,

que ao nomear o Espirito Santo a tinhamos

levantada, e como o Espirito Divino he

amor ,e o amor fogo , pagamos aqui con-

vertidos em fogo, o que delinquimos con-

tra o amor. Senhora , naõ aggravemos ao

Espirito Santo , porque o amor obrigado

he suave, offendido terrivel; fazei dar a

Deos o seu tributo reverente , puro, e com

seu conto, e medida; nem ceremonia , nem

syllaba, nem pronúncia de menos, nem tam-

bem de mais. A este proposito vos trarey

huma historia.

Hum Rey poderoso mandou hum mi-

nistro a cobra os seus tributos; chegou a

recolher o paõ ; e perguntando, se vinha a

conta certa , lhe disse por zombaria o tri-

butario: Falta hum graõ de trigo: Pois naõ

aceyto, responde o ministro , que no tri-

buto do Rey nem hum graõ de trigo há de

ir de menos: levandose da ironia, voltou

as costas, e foy arrecadar o tributo das

perolas; entregoulhas o depositario, e dis-

se: Estaõ muy bem contadas, e ainda levais

huma de mais: Pois deixay-a ficar , disse o

cortezaõ , que o tributo do Senhor há de

ter sua conta , e sua medida, nem há de fal-

tar, nem há de sobejar: deyxou huma, e le-

vou as outras. Passou a receber hum regalo

de aromas , cõ que hum dos magnates pre-

senteava a ElRey; deolhe a quantidade, que

lhe pareceo sufficiente para offerta de hum

taõ grande senhor, e vendo que o minis-

tro se naõ despedia, pergunto: Quereis le-

var mais? Quero, respondeo elle ; com que

lhe accrescentou a quantidade;e o homem

ainda sem despedirse, deitava o outro mais

aromas , e este sempre parado a receber

humas, e a esperar outras, até que o liberal

lhe disse: Das perolas naõ quizestes huma

de mais , e dos aromas nunca acabais de

satisfazervos? Sim, respondeo elle, porque

as perolas, e o trigo saõ tributo d’ElRey, e

o que se paga ao senhor há de ser justo com

seu pezo, e sua medida, nem há de faltar,

nem há de sobejar: as perolas eraõ divida,

os aromas saõ amor; daquellas basta, o que

basta, destes naõ sobra, nem o que sobra;

com que por mais que me deis dos aromas

significativos da vossa vontade nūca hey de

dizer basta, porque he dadiva de amante, e

essas naõ tem medida. Esta parabola falla

com o vosso coro: no graõ, e perolas se sym-

bolizaõ as palavras, as ceremonias do Offi-

cio divino, tributo do Senhor, que nem há

de ser de mais, nem de menos; nos aromas

os pensamentos, que sobem ao Ceo como

esses fumos ; os affectos, que se abrazaõ

com sua materia; estes sejaõ sem conto,

e sem medida, porque saõ sacrificio do

amor: as palavras, as ceremonias, os cantos

sejaõ por regra, porque saõ tributos da

obrigaçaõ. Muyto cuydado com o vosso

officio, pois vedes que todas as mais saõ

ministras dos officios humanos, e vós as-

ministrais o Officio divino. Callou a cha-

mariz o discurso, e levantou o canto com a

mesma letra,com que primeyro chamou á

mesma cella.

Despierta, despierta ,

Que quien ama, no es justo, que duerma.

Despierta, Ninfa, a mis vozes,

Que ya tu amante te espera,

Y no es razon, que del sueño,

Tenga zelos la fineza.

Despierta, despierta ,

Despierta, que amor te llama,

Y rezelo le paresca,

Que no há llamado em el alma,

Aun que há llamado a la puerta.

Despierta, despierta ,

Despierta, que como tardas,

Entra el amor em sospecha,

Porque no ay ojos dormidos,

Onde ay voluntad despierta.

Despierta, despierta ,

Mira que la Aurora, y el Alva,

Han seguido su carrera,

Uma a llorar tu sociego,

Outra a dezir pereza.

Despierta, despierta ,

Si para aguardar um Dios,

Que baxa de sus esferas.

Eras poco siendo amante,

Que serás siendo grossera?

              Despierta, despierta ,

Uma ardiente, y outra pura,

Le espera rosa, y mosqueta,

Supuesto, que al amor duermas,

Como a los zelos nó acuerdas?

              Despierta, despierta ,

Advierte, para que salgas,

Que te há de dexar mas fea

Um atomo em el amor,

Que uma mancha em la belleza.

Despierta, despierta ,

Mira, que se tardas más,

Este amante, que te espera

Te há de bolver las espaldas

Si te offereció las estrellas.

              Despierta, despierta ,

Que quien ama, no es justo que duerma.

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Posted

13 May 2026

Last Updated

2 June 2026

Footnotes

Footnotes
1 do verbo velar: guardar ou proteger
2 instrumento de metal usado para afiar outros materiais
3 Mateus 7:6
4 uma marcha ou desfile religioso organizado, onde os fiéis caminham em conjunto de forma ordenada e solene
5 merecer algo através de esforço
6 Conjunto de relatos históricos e edificantes da Ordem Franciscana, usados para instrução moral e espiritual dos seus membros.
7 O Mosteiro do Varatojo é um antigo mosteiro franciscano localizado em Varatojo, Torres Vedras. Foi fundado por D. Afonso V de Portugal em 1470, em cumprimento de uma promessa que havia feito a Santo António, pedindo auxílio para as campanhas do Norte de África
8 foi da Província dos Algarves e exerceu o cargo de Ministro Geral da Ordem Franciscana de 1547 a 1553
9 A Santíssima Trinidade—Pai, Filho e Espírito Santo